O debate sobre o que seja felicidade não é de hoje e não entre poucos pensadores.
Mesmo compositores do baixo clero – e do baixo meretrício – como Odair José, filosofa a respeito quando canta que “felicidade não existe. O que existe são momentos felizes”.

O pensamento socrático influenciou a maior parte dos filósofos gregos que apresentavam suas filosofias como “mensagens de felicidade, e estabelecia que a felicidade, ou “eudaimonia”, significando uma vivência sob a influência de um espírito bom, não viria das coisas exteriores nem do culto ao corpo, e nenhum destes deveria ser melhor cuidado pelo homem do que a sua alma, único meio pelo qual seria possível atingi-la. Sócrates acreditava que uma pessoa virtuosa é feliz.

Aristóteles, à sua vez, coloca a felicidade como o fim último dos atos humanos e que, para se chegar a ela, é necessário viver segundo a razão. Toda a ação segundo ele, “tem como objetivo um bem qualquer, por isto tudo tende ao bem”, havendo “coisas boas em si mesmas e coisas úteis que dependem de algo mais”.

Propondo dois tipos de virtudes, as intelectuais e as morais, Aristóteles estabelece que a primeira nasce e cresce por meio do ensino, e que as virtudes morais se concretizam através do hábito e não da natureza.

O exercício seria o meio proposto por Aristóteles para se adquirir virtudes, sendo que as mesmas eram entendidas por ele como “disposição de caráter relacionada com a escolha de ações e paixões, e consiste numa mediania (…) é um meio termo entre dois vícios, um por excesso e outro por falta”. Esse meio termo proposto e usado frente às ambiguidades da vida sempre direcionam ao que é justo, à “justa medida, segundo a qual se distribuem os bens, as vantagens, os ganhos e se administra a política”.

Para Aristóteles, a felicidade é autossuficiente e todo ser humano a busca como um fim em si mesmo, sendo, portanto, uma atividade da razão, onde o homem não se resume a ela, possuindo “algo de estranho à razão, que a ela se opõe e resiste, mas que, no entanto, participa da razão”. O homem seria capaz de dirigir seu lado impetuoso pela virtude adquirida pelo hábito, repetindo sucessivamente os atos que conduzem a uma justa medida, que “tem a ver com paixões e ações, nas quais o excesso e a falta constituem erros e são censurados, ao passo que o meio é louvado e constitui retidão”.
A ideia de completude e de onipotência divina que se evidencia pelo discurso aristotélico como felicidade perfeita, se associa a um tipo de emoção por ele denominada prazer, que passa a ser tomada como o verdadeiro bem a ser realizado, o verdadeiro caminho para a felicidade.

A ideia de Aristóteles juntada à ideia epicurista de felicidade pautada no prazer, estando sempre e somente no homem, podem ser estabelecidas como base de uma cultura hedonista e consumista, que demarcam as subjetividades nesta realidade do consumo.
Se aristotelicamente concordamos que felicidade é prazer, e se para o modelo de civilização atual o prazer só é encontrado no consumo exagerado e obstinado, descobrimos, então, a fórmula da felicidade: consumir até aos limites do cartão de crédito e do cheque especial.
Odair José tem razão.

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