Para o escritor israelense Amós Oz (1939 – 2018), o fanatismo tem aumentado no mundo, principalmente, porque as questões complexas a serem respondidas também têm crescido. Entre elas, por exemplo, o conflito entre judeus-israelitas e árabes-palestinos. Para Oz, este é um confronto da injustiça contra a justiça, e da justiça contra a injustiça.
“Os árabes palestinos afirmam que esse é seu lar exclusivo. E eles têm um forte argumento. E os judeus israelenses reclamam a mesma terra como seu único lar histórico ancestral. E têm um poderoso argumento. Isso não é um filme de Hollywood com mocinhos e bandidos. Esse é o trágico conflito entre certo e certo”, diz o escritor, que é considerado um traidor por judeus mais conservadores.
Amós Oz acusa muitos ocidentais, incluindo intelectuais que detestam filmes hollywoodianos, de não compreenderem esta razão, motivo pelo qual querem escolher um lado. Querem saber quem são os bonzinhos e quem são os malvados para assinarem uma petição em favor dos mocinhos, participar de uma manifestação contra os bandidos, e irem para a cama se sentindo muito bem a seu próprio respeito. “Esse conflito, essencialmente, não possui mocinhos e bandidos”, conclui com ênfase.

Quando as questões não são ordinárias, e sobre elas não há uma mínima réstia de conhecimento a lhes alumiar, a obscuridade leva às paixões fanáticas (a redundância é proposital, para ênfase).

A pandemia de Covid-19 já completou um ano e o conhecimento científico acumulado nesse período não permeou ainda a camada leiga da sociedade. As muitas opiniões técnicas divergentes entre sumidades da cátedra e/ou das mídias, complicam mais do que simplificam as questões de prevenção e tratamento da doença. Afora essa desinteligência científica, sempre haverá interesses outros a manipularem dados a favor de uma ou de outra visão. Chamou-se a isto, politização da pandemia.

Para quem está no poder e tem o dever de estratégias eficazes de mitigação dos males sanitários e econômicos, fotografar o panorama com filtros de Instagram tem o condão de suavizar a crise e induzir à percepção popular de que a crise sanitária está sob controle e que a Economia, agora, necessita de cuidados.

Opositores detratores viram o foco para os números pantagruélicos de contaminações e mortes da pandemia, e atribuem ao “governo” – e especialmente ao presidente, a quem chamam de genocida – a totalidade da culpa pelo descontrole.

Criou-se a partir daí, uma falaciosa dicotomia entre Economia e Saúde. Como se priorizar uma, necessariamente, levasse ao prejuízo de outra.

Quando a Ciência preconiza o afastamento social tanto mais grave quanto a própria disseminação do vírus, quem sabe o inominável lockdown, como a forma mais eficaz de frear as contaminações, levantam-se as vozes dos que dependem do consumo ou serviços presenciais para denunciar a falta de humanidade dos que têm emprego e salário garantidos. São confrontados pelos que pregam priorizar vidas humanas à Economia (“dinheiro”, querem dizer).

A base da divisão fanática é o fato de não entendermos o que aí se discute, pela complexidade do tema, providencialmente turbinada por interesses políticos.

O conflito em si, essencialmente, não possui mocinhos e bandidos, repito Amós Oz. Não precisamos escolher um lado.

Não há Economia sem saúde pública, e o inverso não é menos verdadeiro.

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