Ainda não ouvi falar se o novo normal vai mudar o hábito de chupar-se bergamota ao sol, mas já estou me preparando, porque um novo mundo está se nos apresentando pós-pandemia.
Especialistas de todas as áreas entregam-se às previsões científico-conspiratório-especulacionais, mas agarro-me ao direito de ter as minhas próprias, contrariando Raulzito, que preferia ser uma metamorfose itinerante sem opinião formada sobre tudo.
Um século não principia no réveillon, mas quando um fato relevante, ou cadeia de fatos, é capaz de romper a normalidade, abruptamente como um arroto da história.
Foi a partir de 1918 que o século XX começou. Naquele ano, ao tempo em que terminava a Primeira Guerra Mundial, período que se iniciou em 1914 e trouxe grande avanço tecnológico para matar e salvar vidas, soldados americanos começaram a sentir sintomas de uma doença desconhecida e ainda hoje mal-entendida. O mal veio a ser batizado de “gripe espanhola”, por motivos políticos e xenofóbicos. A Espanha, em meio à guerra, ousara divulgar os números do que se tornara uma pandemia, o que outros governos metidos no conflito viam como estratégico não fazer.
Foram milhões de infectados e de mortos, em tempos quando não se discutia os efeitos benéficos ou deletérios da Cloroquina nem da aplicação retal de ozônio em pacientes.

A pandemia transformou a quem não matou. As sociedades passaram a viver uma nova ordem das coisas. Um novo normal. Tecnologias, hábitos, trabalho, organização, sistemas e métodos, transformaram-se em novos conceitos ao término da guerra e do surgimento concomitante da peste. O século XX se tornou o mais vertiginoso tempo de mudanças de todas as eras, para o bem e para o mal, especialmente depois da Segunda Grande Guerra.
Os anos 2000 que nos ameaçavam com o “bug do milênio”, um mal de memória informática que afetaria todos os sistemas computacionais, se mostraram um “cafezinho”, como se diz do campeonato gaúcho.

O Século 21 começa agora. E, como não há nada novo debaixo do sol, um vírus, dessa vez chinês – olhaí a política e a xenofobia de novo – pandêmico como o avô ibérico, nos introduz ao terceiro milênio. Abruptamente como um arroto de Coca-Cola.

A vida como ela é, deixa de ser. Novos hábitos, como uso de máscaras semifaciais, trabalhar de casa (trabalhar em casa tem outro sentido), comércio eletrônico, entrega domiciliar de comida, espaços demarcados para separar pessoas, são alguns dos aspectos que podem fazer o novo normal. O novo século propõe nos reinventarmos como pessoas e sociedade. Ressignificação de nossas vidas, relacionamentos, negócios, hábitos e coisas, deixando para trás comportamentos tidos como “normais” até aqui. Concordam entre si sociólogos, antropólogos, psicólogos, mestres da espiritualidade e – outra das pandemias atuais – coachs de todas as especialidades.

Sou um sujeito mais resiliente que suspensório de barrigudo. Respondo bem aos estirões da história. Estou pronto para o novo normal. Mas, há questões que são absolutamente inegociáveis.
Manterei o telúrico e ancestral hábito de chupar bergamota ao sol. E passar desodorante nos sovacos.

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