Deu-me pena ver um vídeo estrelado pelo candidato a vereador Paulo Azeredo, sentado sobre os escombros daquilo que um dia foi o prédio que abrigava o bar e restaurante do balneário municipal. Ofegante por detrás da mascarilha símbolo da pandemia, recuperando-se da enfermidade que já ceifou as vidas de mais de 150 mil brasileiros, boné cobrindo-lhe os cabelos já embranquecidos, Azeredo deplora a situação de desmantelo de um dos maiores símbolos do populismo do seu governo, quando prefeito. Motivou comissionados e gratificados a fazerem a reforma do local. Ele próprio, trajado com indefectíveis calções e meiões furta-cores, pegou na enxada e na brocha e revitalizou o balneário público.

Deu-me pena do Paulo. Pecou por comissão e não por omissão. Subtraíram-lhe o mandato de prefeito pelos rompantes de querer fazer, atropelando parágrafos e incisos de leis que pretendem proteger o erário da ganância daqueles que são capazes de esconder dinheiro no rego, aquele sulco que separa as nádegas.

Estava ali, naquele vídeo, um homem convalescendo de Covid-19, lamentando o desastre provocado por uma epidemia, se não mais grave, pelo menos incurável. O abandono dos espaços públicos, especialmente daqueles dedicados aos populares, que não podem frequentar locais pagos de diversão e lazer.

O semblante envelhecido, a fala entrecortada pela respiração curta, o derrière sobre os escombros, a saudade de um tempo que já não é, serviram-me de metáfora para uma análise ligeira da situação do político e de seu partido.

Azeredo já não é o deputado de vários mandatos. Foi um prefeito eleito por parca diferença de votos e o mandato foi encurtado pelo impeachment que sofreu. Seu PDT sofre de imunodeficiência adquirida, ou seja, não congênita, que permite a ação patógena em seus tecidos.

O PDT de Azeredo preferiu juntar-se ao Republicanos do recém convertido Percival de Oliveira, partido de centro-direita, da base de apoio do governo Bolsonaro. Desdenhou provável coligação com o PT, com quem tivesse, talvez, maior identidade histórica.

A construção do partido trabalhista, brizolista, darcy-ribeirista, está em ruínas, mas um dia já esteve caiado, ajardinado, acessível, como o balneário municipal no governo Azeredo. As faltas de referências e as lideranças caudilhistas tão afetas aos brizolistas, levaram o PDT local a envelhecer e sofrer de dores articulares. Azeredo não tem mais fôlego para uma disputa majoritária. Não há outros nomes fortes que encarassem uma disputa cabeça a cabeça com o atual mandatário ou com Percival. Como prêmio de consolo, restou ao PDT concorrer à vice-prefeitura com Ademir Fachini.

A foto de campanha que orna o vidro traseiro do carro vintage do Cafundó, prócer pedetista e contumaz detrator dos governos percivais, é a imagem esculpida em carrara daquilo que lhes digo.

Ali está o Paulo Azeredo, conformado em concorrer a um carguito de vereador, ladeado pelo seu maior adversário de outrora e atual melhor amigo de infância, Percival de Oliveira.
Decadência sem nenhuma elegância.

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