Uma noite em um tempo tão-tão distante, um casal de sobrinhos que moravam para fora pernoitaram em nosso apartamento para irem à escola na manhã seguinte. Perguntamos, minha esposa e eu, o que gostariam de comer. A decisão estava com eles e poderiam divergir entre si sobre o que cada um comeria. “Qualquer coisa”, hesitaram. Não havíamos estipulado nenhum limite, nenhuma condição, mas, as crianças, humildemente, abriram mão do bom e do melhor para comerem “qualquer coisa”. Transferiam a responsabilidade do que comeriam para mim e minha esposa.

Ali estavam duas criaturinhas em formação que mereciam ouvir deste lifecoach feito à facão cego, uma frase que lhes pudesse nortear a vida. “Se alguém, ou a vida, lhes oferecer opções de escolha sem lhes impor limites, dependendo apenas de suas vontades, queiram o melhor, nunca qualquer coisa”.

A etimologia do verbo “decidir”, decidere, provém do latim e significa “cortar fora”. Então, depreendo, o ato de decidir inicia-se quando começamos a cortar as alternativas que não nos agradam. Uma vez cortadas todas as opções negativas, o que remanesce é a nossa escolha final. Como escolher nunca é uma deliberação fácil, não raras vezes procrastinamos decisões – e a vida -, quando não delegamos a outrem que o faça em nosso lugar. Terceirizamos a existência.

Cada um de nós tem sua própria história de vida, o que diversifica as causas por que não queremos, ou não podemos, fazer escolhas. Não gostarmos de desagradar a outros, o número grande de opções, falta de autoconfiança, podem ser causas de nossa hesitação em decidir.

Intrigado pela falta de divulgação de pesquisas eleitorais na corrente campanha política majoritária, ferramenta de convencimento muito utilizada pelos que lideram o páreo, fui a campo investigar. Tenho lido que, em todo o país, o índice de indecisos nas eleições municipais será alto, ordem dos 20-25%. Oquêi, oquêi! Montenegro faz parte deste todo chamado Brasil. Não seria diferente.

É diferente. Saltaram-me os globos oculares de suas órbitas, caíram-me os butiás do bolsos e o facão da mão. As pesquisas patrocinadas pelas coligações locais combinam-se nos números de indecisos. Cerca de (lápis e papel na mão!) 80% dos montenegrenses ainda não decidiu em quem votar para prefeito daqui a 19 dias. É um dado imponente. Tamanha indecisão só se resolverá diante da indevassável urna eletrônica e seremos governados pelos indecisos.
Poderíamos recorrer à Psicologia, ou à Antropologia, Sociologia, quem sabe, para especularmos sobre as causas de tamanha inépcia decisória.

Está certo que não temos mais paciência para lermos santinhos, ou termos os vídeos do Facebook interrompidos por propaganda eleitoral turbinada, ou ler postagens de candidatos ou de seus pecúnio-representantes, ou assistir lives na horizontal ou na vertical. Inobstante, quem mora na aldeia deveria conhecer melhor os seus índios e não se deixar influenciar pela verborreia eleitoreira ou por indicações de caciques.
Comecem cortando fora. Eliminando. Levante os motivos pelos quais não votaria em cada um dos candidatos. O que sobrar, é o seu prefeito.

Naquela noite, lá em casa, Líli e Mana optaram por um rotundo xis salada, se Alzheimer não me faz errar. E nunca mais aceitaram “qualquer coisa”, quando as opções são muitas.

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