Pensei que fosse imune ao vírus corona, este que causa a tal Covid-19. Durante os anos 20 e 21 passei incólume, embora muitas vezes estivesse convivendo com pessoas que, de repente, apresentavam sintomas e eram protocolarmente afastadas para o limbo de uma quarentena. Tu vens, tu vens, eu já escuto teus sinais. Nada. E não vinha.

Quando tomei as duas doses da vacina não tive reações adversas e parabenizei meu sistema imunológico: tu é o bichão mesmo!

Até novembro passado, os dados indicavam que a pandemia estava em seus estertores, o novo ano seria o início da volta à normalidade. Ou à quase normalidade. Ou à nova normalidade, enfim. O vírus, então, que é mais estratégico quanto à perpetuação de sua espécie do que os antivax, utilizando-se dos organismos destes, modifica o seu código tornando-se mais transmissível. E recomeça o baile funk.
Como em roteiro previsível de cinema trash, as aglomerações festivas de fim de ano cooperaram com as intenções malignas do coronga. Novidade?

As curvas do gráfico de número de contágios, internações e mortes arremetem, quase verticalmente. Como no início de 2021. Como nos albores de 2020.

Cá, eu me imaginando passar incólume pela pandemia. Quais experiências contar aos do futuro? Seria algo como viver em tempos de guerra sem ir ao campo de batalha. Sem tomar um tiro. Coisa de historiador, não de testemunha ocular (ou virótica) da história.

Pois, coube a mim ser contagiado neste janeiro equatorial de calores históricos. Colegas de trabalho sendo afastados, o trabalho se tornando mais pesado para todos e, inconscientemente, eu não me contava entre os elegíveis ao vírus. Quando os sintomas surgiram, justifiquei-me: resfriado em pleno Verão. Acontece que nosso corpo é muito tecnológico. Ele nos passa informações precisas do que acontece, digamos, em nossas entranhas. Percebi que não era resfriado.

E, pela primeira vez em muitos anos, minha casa se dividiu.

Nunca sabemos como o vírus maldito se comportará em organismos diferentes. Embora vacinados duplamente, não poderia expor Andréa à possibilidade de infecção. Tivemos uma experiência em 2013, quando ela passou mal durante um passeio em Buenos Aires. Era o vírus H1N1, um parente próximo do novo Corona que causou uma epidemia em 2009. Foi uma experiência traumática.

Os humanos somos, especialmente os latinos, sinestésicos, sensoriais. Quero dizer, necessitamos de toques corporais para demonstrar e superlativar nossos sentimentos. Abraços, bicotas, tapinhas nas costas ou no bumbum. Aqui em casa nem os bichinhos escapam dos amassos. Abster-se compulsoriamente de afetos físicos pode gerar, dependente do tempo de afastamento, sequelas psíquicas que merecem atenção. A pandemia que é biológica, arrasta com sua longa cauda também a saúde mental. Não é o nosso caso, evidentemente, pois meu período de quarentena está findando.

Agarramo-nos ao que diz o Eclesiastes: há tempo de abraçar, e tempo de afastar-se de abraçar.
E, assim, nos mantemos saudáveis física e mentalmente.

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