Flordelis é mulher, é negra, é favelada. Lutou como uma garota e atingiu o que, para ela, seria a máxima glória terrenal. Ficou famosa e rica. Reconhecida no meio evangélico e fora dele. Um filme foi produzido sobre sua vida de entregas e renúncias, de amor ao próximo e acolhimento, e no elenco estão atores e atrizes globais. Foram enganados, os inocentes, como os milhares de fiéis que sustentaram a vida de Flordelis em dias de aperto e em dias de opulência. Elegeram-na deputada federal, talvez pelo simplório pensamento de que mais e melhor faria pelos pobres como deputada do que como pastora de almas. Não se sabe de nenhum projeto de lei apresentado por Flordelis na Câmara para mitigar a aspereza da vida dos pobres.
O cristianismo gerou, ao largo de dois mil anos, muitos homens e mulheres que amaram e se entregaram aos desvalidos – estas vítimas de um mundo que se deita sobre o mal como um bombadão se esparrama em cama queensize.

O amor desinteressado, a caridade, o ágape, levou santos de todos os tempos a viverem vidas e morrerem mortes em nada diferentes ao que se sucedia aos que por eles eram amparados. Amar é condescender. Condescender é descer com o outro ao seu nível. Olhar nos olhos, à mesma altura.

O cristão é chamado a compartilhar o Evangelho e, para se fazer prosélitos, simplificou-se a pregação. O kerigma, a mensagem, se tornou a repetição de lugares-comum do tipo “Jesus te ama”. Dizer Jesus te ama é a mais precária forma de se terceirar o compromisso. Jesus nos usa para amar a humanidade.

Amor ao semelhante é a escolha de condescender com o outro, metendo-se nas sandálias dele para sentir o que pensa, o que sente, quais suas necessidades.

Em nada o amor cristão se parecerá com os shows midiáticos das estrelas religiosas, em que a mão direita não esconde da mão esquerda nenhum segredo.
O amor é sofredor, não sente inveja, não dá lugar à soberba. Não busca os seus interesses, não folga com a injustiça, mas com a verdade. Foi o que disse Paulo em sua carta aos coríntios. Sem amor somos como o metal que soa ou como o sino que tine. Só barulho. Só bafo. Não há maior amor do que morrer pelo outro.

O amor do Nazareno pela humanidade não nos autoriza ao sentimento vago que, por vezes, se degenera em sentimentalismo.
Flordelis perdeu o rumo da casa. A mulher que adotou 55 filhos abusou de alguns deles. Influente no meio gospel (evangélico é outra coisa), agradavam-lhe eflúvios de Brasília, centro do poder secular tabajara. O marido (que fora seu filho e genro) intrometeu-se demais em seus negócios, tornando-se rival em popularidade e influência, além do que, tinha as chaves das burras. Para “não escandalizar o povo de Deus” com uma separação que se faria rumorosa, optou por eliminar o consorte. Separação não se pode esconder. Um assassinato, quem sabe?

Poderia ter se tornado paradigma da luta da mulher negra e favelada, poderia ter sido vista como exemplo do empoderamento da mulher, poderia ser a encarnação do amor, mas preferiu dobrar-se à vaidade. O amor ao dinheiro é a raiz de todos os males. Ando tão meio assim, que já não me escandalizo com nada.

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