Uma família com sete filhos não podia comemorar o aniversário de todos e acrescentar ao calendário, ainda, dias das crianças, páscoas e natais. Ganhava-se um guaraná e uma maçã quando um caía de cama. Era mais uma chantagem que se fazia com a mãe do que propriamente uma necessidade de enfermo terminal. Não era comum comer-se fruta ou se tomar refri quando o salário do provedor era pago por uma autarquia do Estado, sem nenhum compromisso com datas. Brinquedos eram tão raros quanto saldo positivo no holerite do arigó do DAER.

A infância torna-se, então, uma vasta oficina de desejos e improvisos, hábil em materializar mundos paralelos, onde habitam a curiosidade e a criatividade, capazes de satisfazer a necessidade lúdica, não suprida pela falta de acesso ao mercado. É ali que se transformam pedaços de madeira nas armas dos mocinhos e dos bandidos. É ali que latas de azeite se reciclam em trenzinhos, batatas e palitos se tornam a tropa de gado.Era durante o futebol com bola de meia que o sol de verão tisnava a pele dos guris. Era de chuva o banho depois da pelada. A hiperatividade não nos permitia acumular gordura. A vida era analógica e corria analogicamente, como a velha televisão Zenith comprada em inacabáveis prestações.

O neurocientista francês Michel Desmurget tem se dedicado a refutar teorias pró-tecnológicas defendidas quase à unanimidade, hodiernamente, como a noção dos nativos digitais, a ideia de que as crianças do século 21 já nascem sabendo mexer com smarphones e computadores.

O pesquisador francês reúne farta documentação científica para explicar que o uso demasiado de telas compromete o desenvolvimento emocional e intelectual, em razão de que as crianças deixam de interagir com gente de carne e osso e relegam as atividades mais instigantes aos neurônios, como a leitura.
No livro “A Fábrica de Cretinos Digitais”, o pesquisador experiente na neurociência cognitiva e autor de centenas de trabalhos desenvolvidos com crianças e adolescentes ao redor do globo, constrói a tese de que o uso abusivo de telas está piorando o desenvolvimento físico, psíquico e emocional da nova geração. “Constante bombardeio perceptivo; desmoronamento das trocas interpessoais (especialmente intrafamiliares); perturbação tanto quantitativa quanto qualitativa do sono; amplificação das condutas sedentárias; e insuficiência de estimulação intelectual crônica…”

Desmurget reconhece o lado bom da tecnologia, mas pensa que as famílias e as corporações da área perderam a noção. Sua preocupação não está fincada na aplicação mais educativa das telas. É o uso recreativo que complica. Pela ótica do estudioso, é ilusão achar que videogames tornam os jovens mais habilidosos e inteligentes. “O ser humano carrega o mesmo cérebro de milhares de anos e, se o bombardeio digital mexeu com nossos neurônios até agora, deve ter sido para pior”, explica Demurget.
Não restam dúvidas que a era analógica gerou muitos cretinos que ainda vicejam por aí, mas a era digital tem potencial para multiplicá-los de forma aque se tornem hegemônicos.

Só por hoje mantenha a gurizada longe das telas, como cowboys outsiders que galopam cavalinhos de pau.

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