Há tempos não tenho mais uma utopia. Nenhuma utopia para essa vida terrenal. Aos 50 e poucos, o homem não pode mais se iludir com nada, sob pena de ser diagnosticado com uma psicopatologia qualquer.

Sou daquelas criaturas que não se deixam arrebatar com as certezas de ninguém. Não adiro a nenhuma verdade. O átomo se chama átomo por que se o imaginavam indivisível. Então, as partículas subatômicas – prótons, nêutrons e elétrons – foram descobertas. As convicções científicas de hoje podem ser relativizadas pela Ciência amanhã.

Contudo, não duvido de nada. De modo que sou um cético filosófico. Bacana, isso. Cético filosófico. Em verdade, sou um cético pirrônico (Pirro de Élis, século III a. C.), aquele que nada afirma sobre a verdade, mas continua a buscá-la e investigá-la. Se verdades científicas podem – e devem – ser revistas conforme evolui o conhecimento, que se dirá sobre verdades filosóficas ou ideológicas? Dou-me à política sem as certezas, sem o vezo da inerrância, sem a arrogância das ortodoxias. Fundamentalismos não se abrem ao contraditório. Não me deixo instrumentalizar.

Propaganda eleitoral, como comercial de margarina, em que as famílias acordam felizes e sentam-se à mesa para comungar de um agradável desjejum, não me convence. Clichezinho demais, senhores do marketing de cartilha.
Utopia foi um país imaginário, criação de Thomas Morus, escritor inglês (1480-1535), onde um governo, organizado da melhor maneira, proporciona ótimas condições de vida a um povo equilibrado e feliz.

Quando eu era um guri, acreditava que o socialismo seria capaz de levar a humanidade à Utopia. Sem juízo de valor a respeito da doutrina marxista, entendi, ao depois, que ela é inábil para implantar o paraíso terrestre. Perder o encanto pelo socialismo, contudo, não me joga no colo do capitalismo selvajão ou do liberalismo gourmet. Tampouco este sistemas econômicos são capazes de redimir a humanidade. Socialismo e capitalismo, e todos seus corolários ideológicos, por criação do espírito humano, trazem em si o gérmen da corrupção, e aqui corrupção também quer assumir o significado mais literal, de apodrecimento, deterioração, putrefação.

Em época de eleições periódicas, voltam a se assanhar aqueles sentimentos juvenis de que um novo período está por chegar – para nossa alegria!
Nossas vidas são segmentadas pelos ritos de passagem. Quando a monotonia entorpecente já nos prenuncia a morte, um novo rito nos devolve os sonhos e projetos.

As campanhas eleitorais são, assim, como um rito de passagem cíclico, a promessa de que se iniciam novos e esperançosos tempos. Um eleito, ou um partido, virá para nos devolver a Utopia perdida, um lugar imaginário no qual o governo, leis e condições sociais são perfeitos.

Montenegro está sob intenso fogo propagandístico. Candidatos, novos e usados, esmeram-se em nos anunciar um admirável mundo novo a partir de 2021. Mas, não estão unidos neste sentido. Opõem-se uns a outros, mas unem-se em arreglos esdrúxulos, sem nenhum pejo ideológico-partidário, aos antípodas de ontem. Recuperaremos o tempo perdido?
Estou taciturno e não nutro grandes esperanças.

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