Quando a professora Varna perguntou à turma a profissão que cada um dos alunos e alunas gostaria de desenvolver quando crescesse, talvez eu tenha sido o único que não queria ser médico ou astronauta.
Estávamos no segundo ou terceiro ano do curso primário do Grupo Escolar Dr. Jorge Guilherme Moojen, ali, no Passo da Cria, e a gurizada filha de operários ainda tinha o direito de sonhar em profissão melhor que a dos pais. A época era de competição espacial e os americanos haviam pousado seu módulo no solo lunar em meados de 1969. Então, alguns queriam ser astronautas. Embora nem todos planejassem elevar-se acima da atmosfera para descobrir se o planeta éum globo levemente achatado nos pólos ou se é plano como uma mesa de futebol de botão, tampouco planejavam uma carreira que não lhes pudesse proporcionar uma vida melhor do que as que enfrentavam. Houve um guri que queria ser presidente do Brasil. Em tempos de governos plenipotenciários, poderia ser perigoso, mas que sabíamos nós dos riscos de sonharmos com futuro melhor?

A minha voz saiu fraca e trêmula quando respondi à pergunta da professora Varna: “soldado”. A professora não conseguiu esconder um risinho de canto de boca ao repetir, em dúvida: “soldado?” Acenei timidamente com a cabeça, confirmando. De modo que eu não queria ser médico, nem astronauta. Eu queria ser soldado.

Os soldados que me colonizavam a cabeça não eram os heróis do cinema e televisão, tecnologias de então a que não tínhamos acesso fácil. Eram os brigadianos, os pedro-e-paulos, mais próximos de nossa realidade. Quiçá, este tenha sido o motivo da descrença da professora quando declinei minha vontade de vir a ser um soldado. A professorinha primária já deveria saber que Educação e Segurança Pública remuneram muito mal aos seus servidores. Quem quiser deixar a pobreza deve buscar profissões mais altas, digamos, como a dos astronautas.

A professora Varna chegava à escola dirigindo seu fusca vermelho e trazia o cabelo curto como o de Elis Regina. Vestia-se bem e morava no centro da cidade. Algumas meninas queriam ser professoras quando crescessem.

São fatos assim, prosaicos, mas indeléveis, acontecidos na rotina de salas de aulas, que não nos deixam olvidar nossos queridos mestres. Hoje eu entendo o sorrisinho da professora Varna. Foi melhor que a vontade de me tornar um soldado tenha sido tão fugaz como a própria infância.

No último sábado, encontrei-me com o vereador Gustavo Oliveira em um supermercado. Conversamos rapidamente sobe a semana legislativa que terá como tema principal a votação do projeto de lei que trata da reposição salarial dos professores e, pomo da discórdia, a desvinculação do nível 1 dos níveis 2 e 3 da carreira do magistério municipal. Esta foi a forma proposta pelo Executivo para que o piso salarial possa ser pago a todos, sem discriminação, preservando o erário do canetaço eleitoral paga-e-não-bufa do Presidente da República que mandou pagar 33,23% de reposição aos professores.

Gustavo é filho da saudosa professora Varna Harres de Oliveira. Sabe perfeitamente o valor dos professores. Sabe perfeitamente dos limites previstos pela Lei de Responsabilidade Fiscal.

Não seria demasiado pensar que todos os vereadores soubessem dessas cousas. No entanto, alguns deles – como eu guri – só querem ser um soldado sob as ordens de outrem.

Deixe seu comentário