Paulo Azeredo é um homem bom. Humano e cheio de vontades de auxiliar o próximo e a comunidade em que está envolvido. E simples. Um homem simples, apesar de ter convivido por anos com o Poder, cumprindo sucessivos mandatos de deputado estadual e secretário de Estado. Mas, mesmo um homem simples não pode lidar com política de forma simplória, como quem escamba melancia por aipim, ali em Muda Boi.

O mestre Jesus de Nazaré quando comissionou seus doze discípulos a saírem para pregar as boas novas, advertiu-lhes que seriam tratados como ovelhas em meio a lobos vorazes, não para desestimulá-los, mas para orientá-los: “sejam simples como a pomba, mas prudentes como a serpente”. Como toda analogia, o uso deve se restringir ao aspecto que se queira destacar para cada caso. Aqui, a serpente, ou cobra, não significa a “venenosa” do Jardim do Éden, capaz de convencer nossos ancestrais ao pecado original. Aqui, em Jesus, a característica da serpente a ser observada, a demonstrar sua prudência, é o fato dela se esgueirar por entre as pedras e se deslizar para as tocas diante de ameaças predadoras, e só armar o bote e destilar veneno se não houver outra forma de sobreviver.

Azeredo prefeito sofreu impeachment por bagatela, penso. Havia formas de, legalmente, se contornar os pequenos imbróglios em que se meteu quando da construção da famigerada ciclofaixa da rua Capitão Cruz, em que a não licitação de olhos-de-gato e tachões foram o mote de ilegalidade a lhe levar a julgamento pela Câmara de Vereadores. Não foram os tachões.

Azeredo entrou em rota de colisão com vereadores, inclusive do seu próprio partido, ao dar vazão ao caráter do homem rural para quem uma enxada na mão e uma ideia na cabeça bastam para cumprir o dever de fazer. Suas boas intenções desconsideraram que leis que obrigam as evidências objetivas de probidade não se destinam apenas aos de caráter menos claro. Azeredo, parece-me, só ouvia os que dele dependiam para se segurarem em cargo comissionado – um dos quais, hoje, o desafora -, desdenhando o alerta de outros de que a animosidade para com os vereadores poderia complicar-lhe o desempenho no cargo de prefeito.

Vereador mais votado do último pleito, Paulo Azeredo se envolve em outro quiproquó ético. Ao divulgar vídeo em que mostra o forro de PVC do gabinete do prefeito, cujo áudio revela parte editada de reunião com o alcaide, testemunhada pela assessora parlamentar do edil, Azeredo se enrola e pode vir a ser cassado mais uma vez. Não creio que o seja, mas oferece-se voluntariamente ao cadafalso.

Sabe-se que Azeredo é a voz dissonante em uma Câmara servil ao Governo. Sabe-se que o atual prefeito foi o relator do processo que recomendou o impeachment do ex-prefeito. Então, por essas coisas insondáveis da alma, permite que a assessora faça uma gravação clandestina que, sob julgamento político, por recomendação da Comissão de Ética da Câmara, pode custar-lhe o mandato. É como se Paulo Azeredo, este homem cordato e bom, sofresse do mal que a psicologia denomina Síndrome da Autossabotagem”.

Não se trate o caso da gravação não autorizada como crime, à luz do Direito. Trata-se de um caso ético. A divulgação, entretanto, se provado prejuízo moral, pode ensejar uma ação civil por parte do prefeito.
Serpentes predam pombas para sobreviver.

Paulo Azeredo, para seu bem, não deveria permitir a inversão da cadeia alimentar ao deixar que a pomba – essa necessidade de provar sua própria honestidade – engula a prudência da serpente, que impediria que atentem contra seus mandatos populares.

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