Quando fui aluno do professor Pedro Pinto da Silva e da professora Izabel Funck não havia digitais influencers nem redes sociais com suas linguagens próprias. Iam-se os anos 70 e o máximo que reproduzíamos para nos mantermos minimamente junto à manada eram as gírias de então. Havia as gírias populares, de domínio geral, e as mais herméticas, compreendidas por grupos sociais específicos. Quase um dialeto.

Não eram as gírias, propriamente, as causadoras dos choques geracionais, embora tenhamos que convir, pudessem dificultar um pouco o diálogo entre a geração silenciosa e a baby boomer, as duas gerações que dividiam os anos 70, sentadas à mesa do café da manhã.

Silenciosa porque a população nascida entre os anos 1925 e 1942, sobrevivente da Grande Depressão e da Segunda Guerra,era considerada de comportamento conformista, preocupada com o bem estar da sociedade:deixe estar como está para ver como fica. Baby boomer somos nós, os nascidos entre 1946 e 1966, período em que, terminada a segunda grande guerra, nossos pais dedicaram-se à produção seriada de bebês. O boom de nascimentos só foi estancado com o advento da “pílula”, anos depois. Mas, este é outro “papo” (olha uma gíria setentista aí, gente!).

Meu avô Oscar se defendia quando o chamávamos por “velho”: velho é trapo, retrucava de pronto, nos chamando de “brocoiós”. Tratar pai e mãe de coroas também não nos afastavam. Eles aprenderam com o tempo o que era legal, maneiro, pisante, tric-tric-rolimã. Dona Ayda, nossa mãe, arriscava dizer que estava tudo numa “náice”. Por meu lado, nunca pronunciei em casa algumas gírias para não precisar explicá-las. Carpano, por exemplo. Nunca falei “carpano” em casa.

O mister dos professores Pedro Pinto e Izabel Funck era nos ensinar a língua e a escrita escorreitas, obedecendo a norma culta. Ênclises, próclises e mesóclises, orações subordinadas substantivas, radicais gregos e latinos, estavam mais presentes em nossa adolescência do que gadgets eletrônicos em mãos dos millenials.

As figuras de estilo, ou de retórica, de linguagem não literal, eram tão bem ensinadas pelos mestres, que nunca julguei que o professor Pedro estivesse fazendo apologia ao crime quando, com sua voz tonitruante, nos apressava em cumprir alguma tarefa (encontrar um vocábulo no dicionário, por exemplo): “Rápido, jovem! Rápido como quem rouba.” Eles exigiam “capricho” com os cadernos. Cadernos rasurados, com orelhas, desencapados, poderiam sugerir uma mente meio desorganizada ali refletida. Como uma glosa em uma de minhas redações secundaristas, professora Izabel Funck lascou: “Se fosse avaliar apenas o conteúdo, dar-te-ia dez”. O caderno descuidado e orelhudo não me recomendava uma nota 10. Aprendemos a ler, escrever e interpretar textos. Isto é básico para a comunicação efetiva, seja entre contemporâneos ou inter geracionais.

Concluo de meus pensares, que não é a forma de linguagem que separa as gerações.Sei, doutra forma, que há muitos pedros-pinto e izabéis-funck tentando cumprir suas missões de dar formação a atual geração eletrônica, mais afeita aos emoticons, ícones e internetês, linguagem cada vez mais pictográfica e ideográfica, cada vez mais distante da linguagem alfabética, grande conquista civilizatória. Vamos nos adaptar, baby-boomers de todas as querências. Vamos nos adaptar. Isto não separa gerações.

Mas, como nos comunicarmos com os jovens, mesmo quando usamos a linguagem deles, se não nos entendem? Será que cada vez que usar de ironia, por exemplo, vou ter que digitar os inomináveis KKK para lhes indicar que uso uma figura por meio da qual se diz o contrário do que se quer dar a entender? Nego-me e me nego. Negar-me-ei sempre. Prefiro me calar. O calado sempre vence, nos ensinava a mãe, que era da geração silenciosa.

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