As mobilizações históricas por melhores salários e condições de trabalho por parte dos professores, fizeram inculcar no imaginário popular uma crença de que a profissão que exercem é a mais importante de todas as profissões. Tratar-se-ia da atividade que centrifuga todas as demais, ou seja, do centro da qual todas as outras ocupações seriam projetadas para fora. Quem ensina a ler e escrever é o professor. Quem não sabe ler e escrever não pode aprender uma profissão. Logo, o professor é o responsável pela carreira de médicos, generais, advogados, jornalistas, dentistas, pedreiros, artistas e (whynot?) políticos de todos os matizes.

Este sofisma é tão poderoso que inibe discussões importantes e homogeiniza opiniões, de forma a juntar sob uma mesma marquise mosqueteiros e sacis-pererês. Mesmo pais analfabetos sabem da importância da educação e do papel que exercem os mestres no desenvolvimento intelectual de seus rebentos. Não há alma que negue a importância dos professores, a ponto de a profissão ser aceita bovinamente como “a mais importante”.

Quando os poderes do Município se põem a discutir sobre reposição salarial anual da categoria, são diligentes em deixar bem claro que “não somos contra os professores”, que têm tias velhas que foram professoras, etc, buscando justificar suas posições e dever de proteger o erário de aventuras como o plano de cargos e salários do quadro geral dos servidores municipais aprovado durante o governo Aldana, com assinaturas de alguns que remanescem entre o Palácio e a Câmara.

A discussão se torna rasa como os baixios do rio Caí quando é centrada em aspectos tais como se os professores merecem ou não merecem reposição salarial digna, se merecem ou não ganhar tão bem quanto outras profissões. Quando se comparam os subsídios que percebem os vereadores, capazes de se concederem aumentos reais, como na semana passada (fica vermelha, cara sem-vergonha!), quando e onde um guarda civil ganha até três vezes mais que uma docente pós-graduada, as coisas se tornam claras como o sol a pino.Professores sofrem de injustiça estrutural crônica.

Os mais atilados perceberão um viés de desigualdade de gênero para o fato da não valorização do magistério. O Censo Escolar de 2020 aponta que 81% dos docentes brasileiros de escolas regulares, técnicas e EJA são mulheres, e que, em média, os homens ganham 12% a mais. Estamos complexificando o debate, certo?

Quando o Executivo remete à Câmara um projeto que repõe perdas inflacionárias para o magistério municipal e manda pagar o piso nacional para o nível inicial, um aumento bolsonárico-eleitoreiro de 33%, contando com aprovação subserviente dos vereadores e sem considerar o poder mobilizatório da categoria, paga o preço de ver sua base se encolher dentro do casco, como faz o tatu-bola, para se proteger.

A categoria alega que a concessão de 33% para que o nível 1 atinja o valor do piso nacional, sem o mesmo repasse para todos os níveis, achata os salários e acaba com o plano de carreira do magistério local. A Administração não percebe que as coisas sejam exatamente assim e se apóia na exigência legal de proteger as finanças públicas para o não pagamento geral do índice proposto pelo Governo Federal. Sentem-se à mesa, homo habilis!

Não acho que a profissão dos professores seja a mais importante. Penso que é tão importante quanto todas as outras. E, por este motivo, merece ser ouvida.

E basta das patéticas justificativas: eu não tenho nada contra os professores.

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