A polarização política dos últimos anos no Brasil traz à existência a turma dos nem-nem. São os que não querem ver nem Lula nem Bolsonaro eleitos presidente em 2022. Como os que assim querem as coisas, penso, não entrarão em consenso sobre uma terceira via, atomizando os votos feito bico spray, é provável que Lula ou Bolsonaro ganhe mais um mandato no Planalto.

A vida é muito difícil para os nem-nem. Buscar uma terceira opção para as nossas escolhas significa a rejeição de duas ideias dominantes e adesão a uma entre dezenas de outras escolhas possíveis. Qualquer coisa, exceto duas coisas.

O vegetariano não é carnívoro nem vegano. O torcedor do São José não é colorado nem gremista. Destes e daqueles, o que não se pode dizer é que sejam os famigerados isentões. Isentão é outra coisa. Não se trata, também, da mediocridade do meio da escala, com o perdão do pleonasmo. Os nem-nem não pensam que a virtude está no meio, como os latinos. Apenas querem uma terceira opção, ainda que se pareça com uma das – ou ambas – anteriores.

Os nem-nem não podem ser chamados de mornos, aqueles que não são frios nem quentes, os que serão vomitados da boca de Deus, segundo o Apocalipse. São frios ao analisar a situação política a que chegamos e quentes ao defender que só a terceira via nos salva. Veem a esquerda de cartilha como a ameaça de cubanização do país e a direita raivosa como a promessa de instalação do Quarto Reich que, como uma jaboticaba, seria uma coisa beeem brasileira. Os nem-nem são radicais ao modo deles.

Ao cometer os desatinados discursos de 7 de setembro em Brasília e São Paulo, o presidente Bolsonaro quebrou os ovos. O que se esperava, dalí, era uma omelete.

Os apoiadores do mito se prepararam para marchar sobre Brasília, tomar o poder, depor o Supremo Tribunal Federal e, de quebra, nomear Bolsonaro Primeiro como imperador perpétuo do Brasil.

Com a repercussão e reação do Congresso, imprensa, partidos políticos e população não-bolsonarista, a omelete virou gemada.
O presidente aceitou providencial ajuda do ex-presidente Michel Temer, ghost-writer mesoclítico de reconhecida erudição, para dizer que não dissera o que de fato disse. Recuou, deixando seus apoiadores pendurados nos fios, sem escada sob os pés. A marcha sobre Brasília foi adiada sine-die.

A gemada sempre foi receita para levantar defuntos. Foi o que aconteceu. Temer ressurgiudo limbo. Sem nenhuma pretensão eleitoral anterior aos fatos relatados, ao voar para Brasília, solitário em um jatinho particular, para apresentar a Bolsonaro a carta que Bolsonaro escreveu sem escrever, o ex-presidente passou a ser um dos candidatos dos nem-nem.

A terceira via, agora, tem muitas opções. Ciro, Leite, Dória, Mandetta, Moro, Simone Tebet, Temer.
Como não se trata de soma, mas de divisão, os nem-nem ficarão sem-sem. O próximo presidente será Lula ou Bolsonaro.

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