O jornalista francês Bruno Patino sugere em seu último ensaio “A Civilização do Peixe Vermelho” (inédito no Brasil), que nossa capacidade de atenção ficou reduzida a nove segundos, praga da sociedade moderna provocada pelos gigantes da internet com sua frenética difusão de links, imagens, likes, retuítes e outros estímulos para nosso sistema nervoso. “O modelo de negócio das plataformas se baseia na publicidade, e sua eficácia depende do tempo que o usuário passe nelas. As redes se tornaram predadoras do nosso tempo”, diz Patino.

A partir do décimo segundo, nosso cérebro se desconecta e começa a procurar “um novo sinal, um novo alerta, outra recomendação” na contínua ânsia por novidades, por estímulos.

O peixe vermelho tem uma memória limitada a oito segundos. Estamos ganhando em um segundo do rudimentar ser aquático. Trata-se de um empate técnico, em verdade.

Estamos nos volvendo em uma civilização com memória de peixe e os riscos desse alarmante déficit de atenção podem ser catastróficos.
De memória curta sofre o brasileiro. E não é de hoje, para podermos culpar o “Facebook e outros gigantes da tecnologia por utilizarem ferramentas que manipulam nossas emoções”.

O mal de que sofremos tem os sintomas do que foi predito pelo filósofo, poeta e ensaísta espanhol (1863 – 1952), George Santayana, em seu célebre aforismo “aqueles que não podem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo”.

Por conveniência ou por desídia, nós brasileiros não retemos a memória que nos capacitaria fixar, reter, reconhecer e evocar experiências, de forma que fosse evitável a repetição das más vivências históricas. Daí, a vida cíclica do país e da nação, onde o que já foi de novo será, e o que ainda não foi, jamais será. Este é um país que não vai pra frente nem quando tropeça.

Disse mais o Santayana. “Quando a experiência não é retida, como acontece entre os selvagens, a infância é perpétua.” Tóin!
Acham que somos selvagens e infantis? Ou selvagens infantis? Estou me achando meio assim.

Pesquisas sérias já confirmaram que os eleitores brasileiros não lembram em quem votaram, passados poucos meses das eleições. Se não lembramos quem são nossos representantes, não sabemos de quem cobrarmos as promessas de campanha. De fato, não sabemos quais promessas foram feitas na campanha.
E, assim, reelegemos notáveis incompetentes, contumazes ladravazes, dissimulados diversos, loucos de todo o gênero. Por falta de memória.
As próximas eleições, cravam os estudiosos de marketing político, serão definidas pela propaganda digital online, em que as mídias sociais serão o grande e onipresente palanque, de onde os candidatos buscarão o engajamento de seus eleitores.

Centenas de candidatos refestelando-se em inúmeras plataformas digitais, posts, stories, vídeos, pop-ups, links, páginas, tuítes… Nossa capacidade de atenção será de nove segundos apenas. Recomendo levarmos a famosa “cola” no dia da votação. Votaremos nos mesmos candidatos de sempre.
Memória de peixe é o que temos.

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