Foto: Arquivo Pessoal Rogério Santos

Em Montenegro, a questão do racismo perpassa uma estratégia de negação total da existência dos negros. E eu ficava muito doido com isso. Porque tu matas uma pessoa quando nega a existência dela. O racismo é um processo de desumanização tanto de quem pratica quanto de quem é vítima. Porque no Brasil tu não nasce negro.

O racismo em nosso país é tão eficaz que os pretos não sabem nem que são pretos. Tu se descobres negro. E muita gente vai morrer sem se descobrir negro. Isso foi um choque gigante para mim. Porque só fui me descobrir negro com 23 anos quando uma menina branca me dispensou devido não aguentar a pressão de todos (amigos, família, sociedade) por estar se envolvendo com um negro. E quando você descobre como funciona o racismo tu vês coisas que não via. É impressionante. Tu voltas a fita do que aconteceu na sua vida, as escolhas, os processos que sofreu, quando se sentia mal e não sabia o que era. Porque ser negro no Brasil já é uma atividade política militante de sobrevivência. A gente sobreviveu a tudo. E dependendo de recortes tem sempre um stress, né? Vem as piadas da galera falando do seu cabelo, do seu lábio, da sua cor… E você começa a puxar um filme. E as relações se refazem.

Tu consegues finalmente entender que numa festa junina nunca pode ser o noivo; que nunca pode concorrer como o garoto da sala ou da escola. Fica pensando porque tu nunca pegavas os papéis principais das coisas boas da escola. No futebol era o primeiro a ser escolhido, mas no bailinho sobrava a menina que ninguém queria dançar. A escola para muito negros é um ambiente trucidante. Acho que é o berço principal de detonação. No início do Movimento Negro defendia que a gente fosse devagar porque nem todo mundo podia reagir bem, convivia bem com meus amigos brancos (na realidade tentava ser branco) resquícios de sofrimento; atualmente a leitura é outra, graças as iniciações de aprendizado dos saudosos Roberto Santos e Oliveira Silveira; e da brilhante Vera Triunfo.

Lógico, fui um privilegiado, nasci num ótimo bairro (com maioria branca e rica de Montenegro); numa ótima família, meus pais funcionários públicos conseguiram me garantir indicativos em qualidade de educação e de vida, isso ao mesmo tempo é um privilégio e um choque de realidade. Sempre fizeram a questão que o meu lugar não era aquele, através de vários constrangimentos, desde estar na fila de sócios de um clube social, super identificada, sempre aparecia alguma pessoa avisar que ali era só para sócios; em lojas, o produto que queria era muito caro e oferecia outro mais em conta; em prédios, que a entrada ou elevador de serviço era naquela direção; o de segurança me seguir é rotina em supermercados, shoppings. E olhe que estou falando de mim, que tenho mais ou menos uma visibilidade na cidade. Imagina um cara comum, ele nem vai nesses cantos chiques, porque ele não é visto nem como suspeito de nada. Ele já é culpado. E a sociedade legitima isso.

Ele tem que provar que é inocente sem ter feito nada. Mesmo uma pessoa que não sabe o que é o racismo no sentido literal sabe que ali não é lugar para ela. Esse é um trauma que as pessoas que não são negras não conseguem entender. Não conseguem entender como esse fantasma fica cercando a gente toda hora. Isso gera problema nas relações afetivas, gera insegurança na questão profissional, gera dúvidas sobre você mesmo. É muito traumático.

Eu tinha a ideia de que nós negros éramos um povo unido. Só que alguns davam o sangue e ainda tinha gente xingando. Mas aí eu liguei o fo.. -se! Vamos fazer o nosso. No pragmatismo, de realizar as coisas mesmo. Nós estamos no jogo também, defendendo nossos interesses. Tem muita gente que faz embate para fazer palanque do embate. Mas temos que ir para cima em busca da visibilidade e de espaços.

Defendo uma agenda positiva porque tenho grande dificuldade com tudo o que diminui a gente. Porque a gente já foi muito diminuído. Partem sempre do princípio de que a gente é sempre frágil, sempre iludido, enganado por alguém, como se a gente não tivesse interesse, como se a gente também não tivesse capacidade de jogar, de fazer o xadrez, de somar aqui para diminuir ali… O que é isso? Se a gente sobreviveu na escravidão, no quilombo, fazendo isso, não vai fazer agora?

É como meus pais me diziam quando era menor: “tem que tirar 11”. Não adianta tirar dez. Eles já sabiam que era desigual o jogo. É pesado e injusto.

Deixe seu comentário