IMAGEM: ESCULTURA O BEIJO/RODIN

“Romeu e Julieta” é uma peça de teatro de William Shakespeare publicada, provavelmente, pela primeira vez em 1597. Grande parte da obra de Shakespeare é inspirada em fontes anteriores e esta tragédia não é diferente: Arthur Brooke teria escrito, dantes, um poema chamado “A trágica história de Romeu e Julieta”. Entretanto, esta obra teve um caráter um tanto moralista, atribuindo o trágico final ao fato de o casal ter desrespeitado as orientações e vontades paternas, terem se jogado numa paixão luxuriosa e pecaminosa. Já Shakespeare transforma tudo em uma trama em que o trágico é causado não pela paixão e escolhas de seus personagens, mas pelo ódio entre duas famílias: Capuletos e Montéquios.

Lembro, quando estudava na Escola 25 de Julho em Novo Hamburgo, de um debate que tive com um professor do terceiro ano do segundo grau (atual Ensino Médio), no qual defendi que grande parte da violência urbana existente era fruto das condições sociais e que, por mais que houvesse exceções, era a desigualdade social a grande responsável por ela. A minha hipótese era simples: as crianças que são criadas com amor têm infinitamente mais chance de futuramente criarem seus filhos de forma amorosa. Assim, o abandono gerado por situações de miséria é a verdadeira causa da violência. Somos o que aprendemos a ser, amamos porque aprendemos a amar.

A sociedade brasileira é uma das mais desiguais do mundo e gasta muito tempo e dinheiro combatendo a violência com polícia e presídios. Muitos estão até convictos de que o porte de armas é, de fato, a coisa mais importante para garantir a segurança pessoal. Inclusive, a extrema direita brasileira, representada pelo atual presidente da República, propõe, como solução, transformar o Brasil em um verdadeiro bang-bang entre Capuletos e Montéquios, muito ódio no coração dos viventes e hipocrisia também! Pois a causa profunda da violência nunca é atacada, ao contrário, existe uma intenção deliberada em garantir as velhas estruturas sociais herdeiras de um país dividido em casa grande e senzala: ricos cada vez mais ricos e pobres cada vez mais pobres. Daí (o medo ao socialismo) acabar com a pobreza e gerar uma sociedade mais igualitária, nem pensar.

Salvo alguns lapsos de tempo, o Brasil é governado pelas mesmas elites desde o Período Colonial; portanto, se o nosso país tem tanta miséria e violência é porque esses governos construíram isso e são responsáveis diretos por essa situação. É por isso que todos os governantes que tentaram mudar essa lógica foram golpeados. Enganaram-se, portanto, aqueles que apostaram que Bolsonaro seria uma exceção, ao contrário, ele representa exatamente a continuidade de uma sociedade marcada por privilégios de poucos e a miséria de muitos. A prova disso é que esse presidente nunca falou em combater a pobreza. É sempre bom lembrar que o discurso bolsonarista resume-se ao porte de armas e parece que se encerra, se é que já não se encerrou, nele.

Entre os anos de 1592 e 1594, os teatros de Londres estiveram fechados por conta da peste que assolava a cidade. É por isso que, além do ódio entre as nobres famílias Capuleto e Mentéquio, Shakespeare usa, também, como uma das causas do infortunado fim de Romeu e Julita esta doença, já que o mensageiro que deveria alertar Romeu dos planos de Julieta ficou preso em função da epidemia. Este talvez seja o grande sentido das obras clássicas: estão sempre atuais, pois cá estamos nós com nossa tragédia, entre o ódio e a peste!

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