Quando se fala em crise, sempre me lembro dos “ciclos de longa duração” de Kondratiev, que afirmava existir uma tendência na sociedade capitalista de períodos de aproximadamente 20 anos de expansão econômica intercalados por período igual, de retração. Há pouco tempo, o Brasil se encontrava em uma situação bastante favorável do ponto de vista econômico, e agora, em nome da crise, se pretende vender a alma ao diabo.
Os governos Sartori e Temer enxergam na privatização o único remédio para a crise. A privatização do Banrisul, o fim da previdência pública, a defenestração da CLT (com a terceirização) e o pedágio entre Montenegro e Nova Santa Rita fazem parte da mesma lógica: a do quanto menos Estado, melhor.
As contradições existentes no Brasil são gritantes. Um país com riquezas enormes e um grande potencial é marcado por uma das piores distribuições de renda do mundo. E o motivo é simples: os principais beneficiários da concentração de renda (as elites), sempre que podem, reduzem as iniciativas do Estado.

O Estado é o único ente capaz de redistribuir renda e equalizar as distorções econômicas. Portanto, tudo que se faz contra o Estado no sentido de diminuir sua intervenção sempre objetivará um crescimento econômico desigual. Para sair da crise, o caminho é o contrário, e isso não é uma formula comunista. O presidente dos Estados Unidos, Franklin Delano Roosevelt (que foi o único presidente estadunidense eleito para quatro mandatos), para tirar o país da aterradora crise de 1929, interveio fortemente com o Estado e garantiu distribuição de renda. Historicamente, os períodos de expansão da economia se dão justamente em épocas de intervenção estatal, e não o contrário.

As estradas são construídas com dinheiro público e geralmente são grandes obras de engenharia, cujos recursos são muito volumosos. A BR 386 já foi paga por nós, não temos que pagá-la novamente.

Em 1947, Thomas Mann publicou a obra ficcional “Doutor Fausto”, que conta a história de um músico que vende a alma ao Demônio para conseguir realizar a sua grande obra. Analogamente, naquela época, era a situação da Alemanha com Hitler. Em nosso caso, a “grande obra” é privada e restrita a um pequeno número de pessoas, e a alma que está sendo vendida é a dos trabalhadores brasileiros.

Rodrigo Dias
Professor

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