Rodrigo Dias
Professor

O livro “Quinhentos anos de periferia”, do diplomata brasileiro Samuel Pinheiro Guimarães, foi publicado no ano de 1999 para a reflexão acerca da posição do Brasil no cenário internacional, levando em conta o nosso processo histórico. Segundo o autor, o Brasil seria o grande rival dos Estados Unidos no Hemisfério Ocidental Sul, isso se levarmos em conta suas dimensões geográficas, populacionais e econômicas.
Com o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, e o início de uma guerra não declarada entre Estados Unidos e União Soviética (Guerra Fria), a maioria dos países do mundo acabou tomando uma posição de alinhamento a uma dessas duas potências, e as suas respectivas ideologias – capitalismo ou comunismo. O Brasil iniciava, na época, um período democrático e elegeu Eurico Gaspar Dutra como presidente. Dutra alinhou-se automaticamente aos Estados Unidos e rompeu relações diplomáticas com a União Soviética.
Este foi, portanto, um longo período em que a ideologia falava mais alto que os negócios. Sim, ao romper com aquele país, o Brasil fechou relações comerciais com ele. No início dos anos 60, elegeu-se como presidente Janio Quadros, representando propostas nitidamente de direita. Entretanto, Janio virou as costas para a polarização política existente e, pensando na ampliação do comércio internacional brasileiro, reatou relações com a União Soviética. Hoje, caracteriza-se a política externa de Janio como independente. Seu governo foi o mais curto da história do Brasil, durou apenas sete meses.
Com o fim da Guerra Fria, as relações internacionais perderam o tom de polaridade e os blocos econômicos foram formados predominantemente a partir de interesses comerciais. Dessa forma, o Brasil ampliou, sobremaneira, o seu leque de relações externas. E a multilateralidade comercial passou a ser um objetivo estratégico.
Todavia, o atual governo brasileiro tem realizado um alinhamento cego aos Estados Unidos, retornando anacronicamente ao período da Guerra Fria, como se o mundo estivesse ainda dividido entre duas ideologias. Atualmente, somos grandes parceiros comerciais de países do Oriente Médio. Seguir a política dos Estados Unidos para com os árabes significa afastar o interesse desses países pelo comércio com o Brasil; inclusive a Argentina já está se articulando para ocupar as brechas abertas pelo nosso país no comércio com o Irã. A ideologização tacanha das relações internacionais por parte do governo tem o potencial visível de gerar desemprego em áreas como criação e processamento de frangos, carne bovina, agricultura e, por consequência, maquinário agrícola.
Estados Unidos e Brasil produzem praticamente os mesmos produtos para o mercado externo, ou seja, somos rivais comerciais. Portanto, seguir a política estadunidense é o mesmo que pedir para o técnico do Grêmio escalar o time do Internacional! Uma política externa independente e multilateral seria muito mais inteligente e adequada para combater a nossa história de periferia e dependência econômica às grandes potências mundiais. Segundo Samuel Pinheiro Guimarães, a estratégia dos Estados Unidos para o Brasil é “(…) aumentar sua influência sobre a elite brasileira, convencê-la da inevitabilidade, irresistibilidade e da ‘benevolência’ da influência hegemônica e da liderança norte-americana no hemisfério”. Será que, para sustentar a política externa do atual governo – de alinhamento automático aos Estados Unidos – as elites brasileiras estarão dispostas ao prejuízo?

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