Rodrigo Dias
Professor

“Gente pobre” é um livro publicado em 1846, pelo então jovem escritor russo Fiódor Dostoiévski. A história do livro é narrada a partir de cartas que são trocadas pelos dois personagens principais e expressam a grande injustiça social vivida numa Rússia aristocrática, atrasada e governada por um Czar (imperador). Em uma dessas missivas, Varvara conta a seu amigo a vida de um velho muito pobre que oferece tudo que tem para garantir que o filho more num pequeno quarto com seus livros. O orgulho desse pai pelo filho é enorme. Contudo, o rapaz doente acaba morrendo e os livros são vendidos para que o caixão seja comprado. Uma história triste, mas reveladora da grande desigualdade social existente naquele país.
O enredo descrito lembrou-me o livro “Os sertões”, de Euclides da Cunha, a narrativa da Guerra de Canudos (1896-1897) no sertão da Bahia, a qual também resulta de profundas desigualdades sociais: um Nordeste controlado por fazendeiros – coronéis – que superexploravam os sertanejos pobres da região. Esses sofredores da seca e da miséria seguiram o líder messiânico Antônio Conselheiro e, depois de terem posto para correr cobradores de impostos da recém proclamada República brasileira, instalaram-se em uma fazenda abandonada, Canudos. Lá construíram uma comunidade que garantia alimento para todos. Entretanto, o Governo, defensor dos interesses dos grandes latifundiários da época, decidiu fazer várias investidas contra o arraial. O resultado: a morte de todos os homens e a degola de crianças e mulheres. Uma história lastimável, de incompreensão e egoísmo. Sonhos de uma vida melhor que se perderam por interesses mesquinhos e privados.
Narrativas de desigualdade, infelizmente, são a marca da nossa história. Os sonhos das classes subalternas no nosso país geralmente são desfeitos rapidamente em nome de um progresso que nunca é para todos. Em outubro deste ano, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Continuada (Pnad) informou que 50% dos brasileiros vivem com R$ 413,00 por mês e 5% (10,4 milhões de pessoas) com R$ 51,00 mensais! Entretanto, o dado mais revelador é que a renda desses 5% mais pobres caiu 3,8%, enquanto que a do 1% mais rico cresceu 8,2%. Segundo o Relatório da Desigualdade Global, da Escola de Economia da França, o 1% (a elite da elite) detém 28,3 % da renda nacional brasileira. Portanto, o fato de que num momento de crise econômica o 1% mais rico da população ganha, ao passo que os mais pobres perdem, demonstra que a estrutura econômica e social no Brasil segue seu ritmo histórico de garantir privilégios para poucos.
Dostoiévski, em “Gente pobre”, cria uma imagem desesperadora na relação entre a esperança e a desesperança. Na morte do rapaz, antes de venderem os livros para o funeral, o pai pega para si todas as obras que pode, colocando-as debaixo do chapéu e dentro do casaco. O velho segue a carroça que leva o caixão do filho: trôpego, na lama, vai perdendo os livros, caminhando desnorteado atrás de seu sonho desfeito pela vida pobre da Rússia do século XIX. Tal cena faz-me pensar como o pai do jovem estudante via nos livros um caminho de transformação para o filho e como tudo se esvai na lama; e reflito, na mesma lama que os governos federal e estadual estão jogando a educação: o primeiro, com o programa “future-se”, que nada mais é que uma privatização dos recursos da educação disfarçada; e o segundo, com o parcelamento de salários e ataque ao plano de carreira dos professores. Essas políticas acabam com uma das poucas fontes de esperança para aqueles que estão na base da pirâmide social brasileira. Parece-me que o mundo apocalíptico de Antonio Conselheiro se revela: “O sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão!”.

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