Rodrigo Dias
Professor

“Fahrenheit 451” é um livro escrito por Ray Bradbury na época da Guerra Fria. Como outras distopias, – “1984” de George Orwell e “Admirável mundo novo” de Aldous Huxley – trata de grandes medos sociais. Ao contrário das utopias que imaginam um mundo futuro idealizado, as distopias projetam sociedades cujas pessoas são controladas, manipuladas e alienadas.

Para pessoas da minha idade, que viveram o final da Guerra Fria nos anos 80, o grande medo social era a possibilidade iminente de uma guerra nuclear entre Estados Unidos e União Soviética. Aqueles tempos, iniciados com a “Rosa de Hiroxima”, provocaram temores e geraram inúmeras visões distópicas do mundo; a mais forte, para mim, era a de um filme recorrente na sessão da tarde, em que o herói cavalgava na beira da praia diante da estátua da liberdade enterrada até a cintura. Na atualidade, o cinema tem destruído o mundo seguidamente e tenho a impressão de que os vírus têm sido a forma mais usual para a imaginação catastrófica.

Os grandes medos são fatos sociais muito presentes na História, eles aparecem em todos os tempos. No mundo obscurantista e de fanatismo religioso da Idade Média, o texto “Apocalipse 20”, do Novo Testamento, causou no ano 1000, para os crentes que o liam, o grande medo do juízo final. Pois a interpretação que faziam levava a crer que aquele ano seria o último.

Em “Fahrenheit 451”, além da presença do medo de uma guerra nuclear, típica da Guerra Fria, existe também o temor da perda da consciência social, num mundo de alienados embevecidos por televisões gigantescas e programas interativos que fazem do telespectador um sujeito incapaz de compreender o seu papel dentro do mundo, indivíduos dopados por remédios e relacionamentos virtuais. Um mundo em que os livros precisam ser queimados para que nenhuma pergunta possa ser feita e reflexões não ameacem a ordem instituída.

Hoje, qual seria o grande medo? Um mundo sem liberdade, em que pessoas usam máscaras e morrem aos milhares? Uma sociedade em que o liberalismo extremado domina com a lógica do cada um por si, onde uma elite da elite concentra grande parte da riqueza e convence os outros de não terem mérito e que devem aceitar a miséria (e agora a morte) como se fosse natural?

O medo parece-me o sentimento daqueles que estão amarrados, imobilizados, inertes. O medo é a falta de esperança, a falta de ação. No entanto, duas coisas me preocupam. Que as pessoas não se deem conta da importância da educação, saúde e previdência públicas; da relevância dos direitos trabalhistas e da necessidade de combater a fome e a miséria; das pessoas perderem o senso de solidariedade e de que é necessário proteger os seres humanos e o planeta para não ficarmos mais vulneráveis à natureza, tal como nós brasileiros estamos agora, frente à pandemia. As visões distópicas geralmente falam mais do presente do que do futuro: estejamos atentos a elas!

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