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“Édipo Rei” é uma peça de teatro de Sófocles, representada, pela primeira vez, provavelmente no ano de 430 a.C., na cidade de Atenas. Neste momento de pandemia e de muito trabalho em casa, presenteei-me com alguns livros que havia lido há muito tempo, quando iniciei minha vida de leitor, aos 16 anos, na Biblioteca Municipal de Novo Hamburgo. Um deles é esta obra marcante por demais no meu imaginário de adolescente. Hoje, mais maduro e sem canais abertos ou fechados de televisão (pois não tenho paciência para eles), nos momentos de descanso, dedico-me a esta releitura que tem dialogado muito com a situação vivida no presente.

Édipo entra em cena saindo da porta de seu palácio para conversar com os cidadãos de Tebas, os quais, em súplicas, reclamavam da peste pavorosa que dizimava a cidade, solicitavam que o governante buscasse, descobrisse e indicasse a salvação de tal flagelo. A resposta do Rei é extremamente empática, chamando para si toda a responsabilidade pelo sofrimento de seus concidadãos: “Sofre cada um de vós somente a própria dor;/ minha alma todavia chora ao mesmo tempo pela cidade/ por mim mesmo e por vós todos”. Assim, Sófocles mostra, nesta passagem, de 2.450 anos atrás, como um governante deveria sentir e comportar-se frente à peste que matava o povo. Esta busca levou o personagem ao final trágico que conhecemos, entretanto, salvou irremediavelmente sua cidade!

O Brasil, hoje, é o segundo país do mundo com mais mortes por Covid-19, perde apenas para os Estados Unidos. Curiosamente, os presidentes destes dois países, “campeões mundiais da doença”, são dois militantes das ideias da extrema direita! Sim, nosso presidente segue as orientações de seu ídolo do Norte com muita presteza e repete o desdém com a dor alheia de forma muito semelhante.

Deveríamos estar olhando para outros lugares e nos inspirando em políticas de combate à pandemia com resultados eficazes e não catastróficos como os Estados Unidos. Não é apenas um azar estarmos no topo dos mais afetados pela Covid-19, mas sim, o resultado das atuais políticas governamentais.

Dessa forma, considero o caminho tomado pela extrema direita para combater a pandemia absolutamente equivocado, e o número de mortes nos Estados Unidos e Brasil, infelizmente, é a prova disso. Em rede social, o epidemiologista Atila Iamarino faz a seguinte análise: “As pessoas não passaram pela pandemia que merecem. Elas passam pela pandemia que elegem”.

Édipo, antes de salvar a cidade da peste, também a salvou de um tenebroso monstro chamado Esfinge, lançador de enigmas e devorador daqueles que não os respondiam. Assim, tornou-se rei porque decifrou o enigma da Esfinge: “que animal anda com quatro pernas de manhã, duas ao meio-dia e três à tarde?”. Caro leitor, a resposta deste enigma continua sendo a chave para entendermos o que é de fato mais importante e quem deve ser o centro de nossas preocupações, cujos esforços devem ser direcionados neste momento tão difícil de pandemia que vivemos. Você sabe a resposta deste enigma? Venceria a Esfinge?
Pois então, quem é que, na infância (manhã da vida), usa as mãos e os pés para engatinhar; depois (ao meio-dia) usa os pés para caminhar; e, na velhice (tarde) tem de carregar uma bengala para se apoiar?

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