Rodrigo Dias
Professor

Dizem que quem já deu aula para o sexto ano é apto para fazer qualquer coisa neste mundo. Pois eu gostei de dar aulas para adolescentes nesta fase de desenvolvimento. Sempre tive recordações boas das minhas experiências como docente no Sistema Municipal de Educação de Montenegro. Lembro-me de um dia, na sala de aula do sexto ano, da EMEF Pedro João Müller, sermos visitados por uma quantidade enorme de pássaros em nossa janela. Ali pousavam aves das mais variadas cores e tamanhos. Sim, a sala de aula nessa escola fica ao lado de um morro com uma mata densa, que faz de suas janelas uma verdadeira fonte de inspiração. Ao circular pelas classes dos alunos, esses começaram a questionar acerca do nome dos passarinhos. Da curiosidade, saiu o projeto “Catálogo da Avifauna da Costa da Serra”. Os alunos catalogaram as aves da região e identificaram-nas a partir de avistamentos.
Ao mesmo tempo em que a pesquisa no Brasil não recebe investimentos como deveria, uma vez que é estratégica para o desenvolvimento de ciência e tecnologia; também, a formação de profissionais da educação acaba separando o ensino da pesquisa. Licenciatura e bacharelado são estruturas universitárias que indicam tal separação. Professores de um lado e pesquisadores de outro, e isso, junto com a desvalorização dos professores, afeta sobremaneira a qualidade da educação no país.
Criou-se até um estereótipo do pesquisador: jaleco branco, óculos, cabelos arrepiados e uma expressão facial meio maluca. Na verdade, no Brasil, a pesquisa é para poucos, alguns eleitos que adquirem um status de grande nobreza acadêmica. Esta seletividade é extremamente prejudicial à formação de cientistas no Brasil, pois distancia professores e alunos do fazer pesquisa.
Há alguns anos, comecei a preocupar-me com esta separação. Então desenvolvi um projeto na EMEF José Pedro Steigleder, em consonância com a proposta da Secretaria da Educação, que visava levar trabalhos de iniciação científica para a MOSTRATEC, promovida pela Escola Liberto Salzano, em Novo Hamburgo. Juntei ensino e pesquisa e trabalhei com toda a turma. Parti da ideia de que aprender a questionar é a base de qualquer educação de qualidade.
Vejo essa proposta de preparar projetos para feiras científicas como muito importante para a educação na cidade; todavia, é necessário que se dê um passo maior, no sentido de entender a pesquisa como indissociável ao ensino. Sim, a pesquisa deve estar no cotidiano da sala de aula, não mais como ferramenta, em que o professor escolhe se vai ou não usar. Outrossim, como princípio pedagógico, na medida em que todos os processos educativos passem pela problematização: necessidade dos alunos formularem questões a partir de problemas vivenciados por eles dentro de suas comunidades. É claro que, para isso, os professores precisam de formação, devem ser valorizados e, também, necessitam tempo para o planejamento, como o um terço de hora atividade extraclasse, por exemplo.
Concordo com Antonio Faundez e Paulo Freire no livro “Por uma pedagogia da pergunta”, quando dizem: “(…) O que o professor deveria ensinar – porque ele próprio deveria sabê-lo – seria, antes de tudo, ensinar a perguntar”. Assim, o questionamento como pesquisa é a base do ensino de qualidade.

Deixe seu comentário