Cada vez que uma máquina tira um emprego, nos confrontamos com a dura realidade que espera ali adiante: a tecnologia não vai parar e, portanto, empregos se tornarão sucata. O desafio é que não nos tornemos, nós trabalhadores, sucata também.

Em maio de 1999, fui numa palestra do escritor e pesquisador italiano Domênico de Masi na PUC, em Porto Alegre. Suas palavras reverberam até hoje em minha mente. Passados 17 anos, elas estão cada vez mais atuais.

Dizia ele então que a automação era uma oportunidade de libertar o homem da fadiga. Contou uma história bacana sobre a libertação das mãos, com as quais, associadas ao cérebro, fizemos as grandes revoluções no planeta. A libertação das mãos deu-se somente há 700 mil anos. Durante 70 milhões de anos, as usamos praticamente para nos ajudar a caminhar.
Desde então, de uma forma cada vez mais rápida, a sociedade abandona ritmos de vida antigos, ditados pelas estações do ano, pelas semeaduras, para seguir o ritmo criado pelo trabalho e pela produção industrial.

Diante deste mundo criado por nós mesmos, mas que convulsionou nossa natureza, que viveu milhões e milhões de anos de uma mesma forma, é claro que resistências e chamados aos velhos e seguros “bons tempos” imperem diante de nossa insegurança em relação ao futuro.

Sem contar que já temos constatado que não só a natureza humana, mas a natureza em si, não está suportando o novo ritmo. É consumo demais, gente demais, merda demais. O planeta já não aguenta reciclar tudo e nos dar de volta esgoto tratado. Sem contar os empregos, tornando-se raros objetos de desejo de uma juventude cada vez mais ávida pelo intenso ato de viver.

É certo, contudo, que a sociedade pós-industrial não diminuirá a produção. Antes, diminuirá os produtores humanos, trocando-os por máquinas. Isso é inexorável e irreversível. Então a pergunta: onde está a libertação da tecnologia se ela nos deixa com produtos, mas aniquila os produtores?
Eu é que não sei. Não estudo estas bagaças. Mas dá pra ver é que a sociedade está se mostrando incapaz de gerar novos postos para aqueles que a tecnologia toma para si. Insira isto na longevidade que esta mesma tecnologia tem nos proporcionado: um homem de Neandertal vivia, em média, 29 anos. Nós, 80. Haja emprego para trabalharmos pelo menos durante 50 anos. Quanto ócio nos espera!

De Masi diz que é preciso criatividade para escaparmos produtivamente da “libertação” que a tecnologia vai nos proporcionar. E não há criatividade sem fantasia. A derrocada física que o planeta está sinalizando, baseado na sua óbvia finitude, talvez traga um tempo onde nunca a fantasia tenha sido tão necessária. Mas fantasiar o mundo, a vida, não significa olhá-los de modo ingênuo. Significa encontrar as soluções onde o lugar-comum, a lógica unicamente, não permitem vislumbrar.

A fantasia ensaia novos comportamentos e novas visões de mundo. Talvez hoje a literatura e a arte e as reinvenções da vida que elas proporcionam sejam mais necessárias do que já foram. Aquela menina que se vestiu de capim na praça poderia ter dado um start na mente de alguém.
Porém, sua performance foi tão mal compreendida que é mais provável que já estejamos virando sucata na linha de montagem. E não percebemos mais que a vida, como disse Cecília Meireles, só é possível reinventada. Então, é reinventar ou morrer.

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