“All the lonely people / Where do they all come from?
All the lonely people / Where do they all belong?”
(Eleanor Rigby, Beatles)

“Todas estas pessoas solitárias, de onde elas vêm, a que lugares pertencem?” Olhando de longe, todo mundo é feliz. Festas, famílias reunidas, amigos, viagens. Olha só quanta alegria. Ninguém parece sozinho. Mas todos estamos. Sós e enjaulados em nós mesmos.

Os encontros acabam e cada um volta para dentro de si. Se alguém tentou dividir segredos, angústias, com os demais, nunca o fez de todo. Sempre há algo de nós que não dividimos com ninguém. Algo que está a sete chaves, que não faz parte do coletivo. Que é único, nosso e de mais ninguém.

Se alguém buscou ajuda, ou se ofereceu, nunca o fez por inteiro. Algo em nós não pode ser ajudado. Algo de nós não pode ajudar ninguém.

Já reparou no sorriso do vendedor que quer vender uma roupa, uma TV? Ele só quer vender. Não quer mudar nossa vida. No máximo a dele, um pouquinho. Não é por mal. Ele vive disto. E está só. O médico. Já percebeu? Ele é frio. Tem que ser. Não se envolve emocionalmente. Ele é só. Teu pai, tua mãe, presta atenção: eles te amam. Mas tu sabe o que eles pensam? Não! Eles estão sós. Quem escreve crônica em jornal? Escreve só. E não diz tudo que pensa.
Ninguém abre todo o jogo, nem para si mesmo. É um atributo humano conversar consigo mesmo. É um símbolo da solidão. E como nos mentimos! Como nos prometemos o que não vamos cumprir. Como acariciamos a tristeza de estar só; como nos fazemos de vítima quando só resta estar só.

Todo mundo sempre está só.Quem é apunhalado pelas costas por quem confiou; quem apunhala; quem remói seus ódios solitariamente; quem acha que tudo é alegria; quem tem medo da vida e suas dilacerações. Toda alma é uma masmorra; todo “eu”, um prisioneiro. A mente, uma torturadora solitária em seu cárcere, remoendo seus próprios crimes.

Somos nossa única companhia a maior parte da vida. Não sabemos de onde viemos nem para onde vamos. Uma nau à deriva num mar de desejos tão explosivos quanto inalcançáveis.

A solidão não se escolhe. Ela se impõe naturalmente. A publicidade da alma a torna um alvo. Todos querem uma alma tenra e sincera para massacrar. Dilacerar um coração em praça pública é um pitéu. Estar só é segurança.

Estamos sempre sós, incapazes de nossas verdades interiores. O que é em parte uma força, em parte é uma fraqueza. Milhares de séculos de preconceitos nos ajudaram a ser sós. Se somos sempre policiados, natural que nos policiemos também.

Não expomos nossos verdadeiros sentimentos porque seriam usados contra nós. A sinceridade é um bumerangue. Sentimento é fraqueza. Fortes os que os escondem. A que viemos ou a que pertencemos? A solidão responde: viemos para nós mesmos e pertencemos a nós mesmos. E só!

Há os que entram em depressão. Há os que bebem. Há os que se alegram como um desespero, numa felicidade absurda. E há os que dizem que o bagulho não é com eles. Como o padre, na música dos Beatles, que enterrou Eleanor e depois, tranquilamente, limpou as mãos que sujou no sepultamento e voltou aos sermões.

E há os que enlouquecem, como se fosse fácil enlouquecer. A maioria, no entanto, nem toma consciência de que, na verdade, somos ao mesmo tempo a gaiola e o pássaro preso nela.
Mas, enfim, que importa? Quem de verdade quer voar?

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