Às vezes pensamos que a crônica, esta breve espinafrada sobre o cotidiano que aparece na imprensa, foi inventada e popularizada com o advento dos jornais. Parte da verdade. A crônica vem desde os pergaminhos, senão de antes. Uma rápida fofoca da vida alheia, uma mentira sobre um desafeto, uma historinha de alcova sobre uma decisão política, uma opinião sincera sobre um fato irrelevante e lá temos uma crônica. Todo olhar humano sobre o mundo escreve uma, mesmo que não se a publique. A crônica materializa, de certa forma, o direito universal a uma opinião.
Hoje uma opinião anda na velocidade da luz. Sem contar a quantidade: estamos sendo soterrados por opiniões. E como toda abundância, inflaciona e perde valor. Mas nem sempre foi assim. Tempo houve em que uma boa e embasada opinião; uma ideia colocada de forma elegante e civilizada, e que, ao mesmo tempo, trazia à luz fatos desconhecidos, acabava por gerar grandes livros que influenciaram gerações.
A crônica, apesar de seu status um pouco depreciativo em relação a outros gêneros literários, ou por sua brevidade, ou por suas “facilidades”, está longe de ser irrelevante ao longo da História. Foi através das crônicas de Teófanes que ficamos sabendo que a imperatriz bizantina Irene cegou e matou seu próprio filho para tirá-lo do poder. E fez isso na sala onde o pariu. Foram as crônicas de Suetônio que nos contaram como eram os césares romanos. A carta de Pero Vaz de Caminha sobre o descobrimento do Brasil não passa de uma crônica e é nosso primeiro documento histórico e literário.
Foi por meio de cartas e crônicas de viajantes e comerciantes que a Europa, ainda dominada pela noite negra imposta pela Igreja, descobriu que no século IX houvera, em Bagdá, um grande matemático chamado Al-Juarismi que, se aprofundando no estudo das equações, descobriu a transposição de termos de um lado para outro, com a troca de operação. A palavra álgebra deriva do nome de seu livro, Al-jabr wa’l muqābala. É do seu nome que deriva também a palavra algoritmo.
Traduzidas na Europa, séculos depois, suas descobertas revolucionaram a matemática. E quem ajudou a começar todo este pedaço da História foram crônicas.
A crônica, este retratinho três por quatro da vida, este instantâneo do dia a dia pode sempre se tornar um belo e delicioso texto literário, o start de um novo conhecimento. Claro, também depende do cronista. Apesar da proliferação deles pelo mundo virtual, os razoáveis são raros. Bons, nem se fala.
A boa crônica requer algum conhecimento de causa, ideias interessantes, uma boa dose de sentimento e poesia para desenvolver uma prosa agradável e muita elegância verbal e social. Nada disso sobra por aí, nem se acha fácil em mercados. O que tem de sobra mesmo é baixaria, agressividade e prepotência. O que até pode ser crônica nestes tempos de cultura do ódio e da perversidade como motor político. Porém, não faz dela mais um elo a agregar a sociedade.
De qualquer forma, para uma crônica não há assunto ruim. O que normalmente falta é um olhar interessante e original sobre um assunto. Para se conseguir isso, é preciso mergulhar fundo, dar uma estudadinha e despojar-se. É o papel do cronista como o de todo escritor: ter a alma e o coração desnudos.

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