A História traz os exemplos: hábitos injustos só se modificam com a cultura! Para mostrar uma faceta desta verdade, façamos uma breve comparação entre a mulher do século XXI e as meninas medievais. Baseio esta crônica num artigo de Josué Villa Prieto “Ser niña em la Idad Media” em que o autor resgata escritores da época, como Egídio Romano e Ramón Llull.

Dizia Egídio Romano, entre outras coisas, que relações sexuais em meses quentes ocasionariam aumento do número de nascimentos de meninas. E as famílias não queriam meninas. Meninas eram um problema. Poderiam engravidar solteiras. Se não, a família tinha que entregar um dote ao homem que quisesse casar com elas, o que acarretava um problema econômico. Quando nasciam meninas, maridos indignados culpavam as mulheres e as espancavam. Ramón Llull (em 1289) disse: “O homem é uma criatura mais nobre que uma fêmea, por isso naturalmente a fêmea quer mais um filho do que uma filha”.
Talvez não tão “naturalmente” assim!

Egidio Romano ensinava que, “para evitar as tentações carnais, recomenda-se (às meninas) a oração e evitar qualquer situação suscetível à fofoca. Não andar com meninos, cercar-se somente de companhias femininas”.

“Da mesma forma, a fim de preservar o nome, recomenda-se que não se misturem com pessoas conflitantes, pecaminosas e perversas; cuidar da aparência, higiene, penteados, gestos, maneiras, posturas, linguagem, para garantir uma conversa diligente e amigável, livre de críticas e obscenidades”.
Logo depois, o educador dá o golpe final, mostrando o verdadeiro fim de tudo: “Com uma imagem apropriada obterá o reconhecimento da sociedade e terá a honra de ser requisitada por aristocratas como uma esposa exemplar para seus descendentes”.
A Idade Média não queria uma companheira, amiga, parceira. Queria uma parideira para a aristocracia. Somente a partir do século XV começou a haver algum consenso de que as meninas deveriam também aprender a ler e a escrever.

Foi quando recomeçou a luta feminina por sua importância não só para o lar, para a maternidade, mas para o todo da sociedade. Quando elas pegaram num lápis e num livro, tudo começou a mudar. Depois dessa “fraquejada”, até inventaram a Inquisição, mas o processo libertário já estava em andamento e nem o assassinato frio e cruel de milhares delas conseguiu deter a marcha que até hoje continua andando.

Infelizmente, um novo manto sombrio vem se abatendo sobre nós. Uma nova onda paralisante, baseada em preconceitos, fatos distorcidos, ingenuidade e um puritanismo anormal tenta barrar o trem da História. Uma histeria pseudo-religiosa, moralista, de demonização do pensamento racional, investida de poder quer impor “verdades” que há muito foram refutadas pela sanidade. O medo, a força bruta, o achincalhe e o linchamento público pretendem fazer as relações sociais recuarem séculos.

A defesa da democracia, da liberdade de pensamento e das saudáveis diferenças que fazem uma sociedade culturalmente rica, tolerante e plural, passa por acreditarmos que o mundo medieval foi ultrapassado; que o futuro a ser construído não pode ser igual a ele.
Ser mulher no século XXI, quando começa a revanche do conservadorismo (usando, inclusive, algumas delas como instrumento), é só um dos medidores do tamanho do nosso problema e da responsabilidade delas, o elo forte da corrente.
Sem elas, não vamos avançar!

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