Não há muitas verdades que sejam unânimes. Mas se há alguma e da qual não poderemos fugir, é que vamos acabar, mais cedo ou mais tarde, sentindo falta das coisas mais triviais e normais da nossa vida. Uma delas é a primavera. Eu, pessoalmente, vou sentir muita falta da primavera; da retomada do sol pleno que ela propicia depois do inverno frio e dias curtos. Da grama cortada num dia e já se insinuando no outro. Do cheiro dos jasmins, das flores das laranjeiras.
Aliás, cheiros são para sempre. Os cheiros da casa paterna, dos cobertores, a segurança que aqueles cheiros davam. Assim como os sons da nossa infância: a voz melíflua da mãe; sentiremos falta do som das cigarras, do canto dos canários e sabiás, dos passarinhos que restaram.
Um dia, quando menos esperarmos, sentiremos falta da rotina, do dia a dia, de ir ao trabalho e voltar para casa. De um momento para outro, perderemos isso de “voltar para casa”. E toda pessoa tem que ter para onde voltar. A vida prega peças, dá rasteiras, nos chantageia e nos esfola vivos.
É verdade também que, muitas vezes, fazemos o mesmo com a vida. Pregamos peças nela, a jogamos no chão, a chantageamos e esfolamos vivos os que nos rodeiam em nome de nada que realmente fosse mais importante do que ser alguém para eles.
Um dia, sentiremos falta dos anos que já vivemos, das loucuras que ousamos em busca de uma felicidade que nem existia, mas a gente pensava existir. Então estava valendo. Sentiremos falta da saúde, da saudade que sentimos de quem nem amamos como o amor se mostraria quando o conhecêssemos de verdade. Depois, sentiremos falta também do verdadeiro grande amor. “Sentir falta” é uma espécie de outro nome de destino.
Em breve, sentiremos falta da paz que nunca tivemos, mas que sempre buscamos. A paz da inocência que perdemos; a paz falsa de quem não precisa nem quer lutar por nada. A paz ignóbil dos que querem ser isentos num mundo que lhes dá as facilidades que têm porque outros lutaram por elas.
Um dia sentiremos falta do futuro. Do futuro, do tempo que falta, do quase nada mais que nos resta porque nos dedicamos a construir um presente que simplesmente não prevê futuro. Sentiremos falta de florestas, de bichos, do mar limpo, de uma ideia de mundo que preserve a História das pessoas, suas vidas, suas ideias, suas maneiras de viver. O que mais fazemos é construir um mundo para nos esquecer.
Um dia sentiremos falta de nossos pequenos deslizes, de nossos erros infantis, das nossas faltas, faltas estas que todos temos porque simplesmente fazer sempre tudo certo é impossível.
Sentiremos falta ainda, mesmo que tarde, dos nossos sonhos de justiça, de uma sociedade democrática, de uma vida repleta de possibilidades, sem imposições do trabalho, dos amores, dos filhos, das circunstâncias. Sentiremos falta do melhor dos mundos, fantasias que o mundo real destruirá em poucos anos.
Dia chegará em que ela me fará falta. Mais falta do que tudo até então me fez. A falta definitiva. Ou, quem sabe, eu faça muita falta a ela. Será um dia em que um de nós chorará muito. Tomar consciência de que algo ou alguém nos faz falta é o dia em que saberemos se ainda nos restou alguma humanidade. Há sim dignidade na falta; é quando a tristeza nos dignifica.
E, enfim, levanto a cabeça e, ao longe, já dá para ver a primavera se dissipando na névoa.

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