“Hoje não deram almoço, né? Acho que o moço até nem me lavou.
Quase que já não me lembro de nada vida veio e me levou”
Da música “Velho Francisco”, de Chico Buarque

O rapaz chegou ao asilo e apontou para atendente: ele! O velho estava sentado numa cadeira de rodas e ouvia uma louvação improvisada por um casal de pastores. “Vô”, disse a atendente, “tem visita”. O velho nem virou o rosto. Ficou apreciando o sermão. Só minutos depois se dignou a virar a cadeira e se movimentar.
– Me perdoe – ele disse. O superficial também me atrai. Quem é o menino?
– Desculpe-me. Ouvi falar do senhor algumas vezes e resolvi entrevistá-lo para um livro.

– Uhm. Um escritor. Mais inusitado do que isso só o fato de procurar um homem de 98 anos para saber de algo relevante.
– O senhor esteve presente em momentos relevantes da história de nossa cidade.
– Bobagem. Toda época tem fatos relevantes. Você está presente agora.

O rapaz ia responder, mas aproximou-se uma interna com uma manga e ofereceu ao velho. Tinha um sorriso alienado no rosto. – Sabe que não posso comer uma pera. Traga banana ou gomos de bergamota, – gritou. Depois olhou para o rapaz: – odeio este lugar. Este pessoal não gosta de banho, estão sempre fedendo a xixi. Além disso, sabem ainda que não tenho mais dentes e ficam me oferecendo o que não posso comer. – e deu um sorriso com a gengiva.– E o pior: não há com quem conversar.

O rapaz, constrangido, buscou continuar: – Como eu disse, o senhor presenciou fatos importantes de nossa cidade. E que teve uma vida intensa e…
– Você acredita que aqui tem gente que não gosta de banho? Só gostam de dançar, ouvir pastores e esperar a morte.
– O senhor não espera a morte?

– Não preciso esperar por quem vai chegar de qualquer maneira. Prefiro comer bananas ou gomos de bergamotas. Ser lúcido na minha idade, meu filho, é uma tortura.
– O senhor gostaria de falar comigo?

– Acho que não. O que vi e vivi há de morrer comigo. Nem meus inimigos merecem que eu os exponha, mesmo depois de cinquenta anos. É uma espécie de traição.
– Muitos já morreram…
– Mas não suas memórias. Uma memória leva duzentos anos para se extinguir. E olhe lá.

– É uma pena história de um tempo, de uma época morrer com o senhor.
O velho ficou sério. Depois fez umas caretas. – Sabe que minha mulher morreu há trinta anos e ainda sinto o cheiro dela? E vejo o sorriso dela nos meus sonhos? E lembro nossas histórias…

O rapaz baixou a cabeça; – É muito tempo…
– Tinha uma música que dizia: “Como é perversa a juventude do meu coração…” Sabia que o coração nunca envelhece?
–Não sei… respondeu o rapaz titubeante.

– Um coração sempre sente, sempre ama. Todo mundo partiu. Parentes, amigos. Alguns sumiram bem antes de partir. Há mais de vinte anos estou só. Meu horizonte são os muros deste asilo. Mas meu coração, este perverso…Foi um grande amor… foi sim…
A velha trouxe as frutas que ele pedira e fechou seu sorriso alienado ao perceber seus olhos marejados.Um longo silêncio se fez. O velho comeu os gomos de bergamota. O rapaz já levantava para ir embora quando o velho disse: – Mudei de ideia. Tem um caderno?

– Tenho um gravador.
– Então liga. Era uma vez um homem jovem transbordando de testosterona e ódio!

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