O passado nos condena às probabilidades que ele traçou. O passado é uma força bruta a impulsionar a vida que o presente escreve. Acreditar que o que somos e até o fato de existirmos tem a ver com as decisões de governos e povos de séculos atrás mostra a potência deste motor chamado História.
À época das migrações de alemães e italianos, seus lugares de origem estavam para lá de impróprios para uma vida decente. Conforme Eric Hobsbawn, a fome e a deterioração urbana fizeram reaparecer na Europa grandes epidemias, como a cólera e o tifo, que varreram o continente na década de 1830. Em 1847, um terço da população da Prússia deixara de comer pão e comia somente batatas. A economia europeia minguava e, com ela, seu povo.
E como sempre há alguma poesia nas tragédias humanas, muitos chegaram a ver sublimidade na marcha de 2 mil mulheres pelas ruas de Rochdale cantando hinos. “Assustadoramente famintas, devoravam uma bisnaga de pão com indescritível sofreguidão e se o pedaço de pão estivesse totalmente coberto de lama, era devorado igualmente com avidez.”
Nesta mesma época, a Baronesa de Rothschild foi a um baile de máscaras adornada com joias no valor de 1 milhão e meio de francos.
Foi este caldo social de fome, miséria e desesperança da Europa do século XIX que nossos bisavós e tataravós viram como um impulsionador de uma nova vida. Uma nova vida em outro lugar que não mais lá. Aquelas terras tinham donos seculares e irremovíveis. E aqueles donos já não os queriam por lá também. Havia gente demais para uma riqueza já distribuída.
E ao atravessarem o oceano, uma carta do baralho de eventos foi mudada. E com ela toda uma cadeia de realidades virou fumaça em prol de outras que nem em sonho existiam. Pessoas de diferentes regiões de um mesmo país que nunca se encontrariam nos países de origem, como imigrantes, acabaram se encontrando aqui. Casaram e tiveram filhos. Imigrantes de diferentes países, que nunca se encontrariam na Europa sempre dividida por guerras, aqui puderam constituir família e ter filhos. Alemães com portugueses; italianos com alemães, portugueses com italianos. E o mesmo raciocínio pode ser levado para os escravos trazidos da África.
Somos, a nossa geração, aqui neste lugar, os bisnetos e os tataranetos das grandes tragédias europeias e africanas. Só nascemos; só estamos vivos, só existimos por conta do encadeamento do descomunal poder do imponderável e do imprevisível que, em grande parte, norteia e decide quem deve existir e quem nunca nascerá.
É cruel pensar que o sofrimento de nossos antepassados os moveu de forma a dissolver as possibilidades de uns para materializar as de outros. Mas parece ser assim que a máquina funciona. Por conta da estagnação econômica de uma parte do mundo, uma nova miscigenação de raças, de etnias formou novas pessoas e um novo povo. Nós, portanto, que só estamos aqui curtindo as maravilhas de estarmos vivos porque tudo aconteceu como aconteceu.
Então um tetraneto de um imigrante do sul da Alemanha e de uma imigrante do norte da Prússia encontra a tetraneta de italianos que se misturaram com portugueses, alemães e indígenas locais, e um amor, um amor único, improvável, que nunca existiria sem estas circunstâncias, existiu!
Há ou não há um olhar que possa ser bonito sobre todo mal que há neste mundo? Eu acho que há. Somos todos frutos dele de alguma forma. Mesmo que isto seja, no fundo, muito triste.

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