A expressão “nunca mais” já tem força por si só. Não permite um “depois”, um arrependimento, um novo começo. Nunca mais é nunca mais e ponto final! E o poeta americano Edgar Allan Poe ainda deu a ela mais força, uma força poética e transcendental na voz de um corvo fazendo-a mais dura e definitiva. No geral, “Nunca mais” tem um gosto de derrota, de “perdi a minha chance”. Quando bate um nunca mais na nossa vida, só resta o fundo do poço.

As limitações da vida humana, desde suas perdas definitivas até sua brevidade, sua limitação no tempo, tornam a expressão ainda mais drástica. E buscamos sempre um modo de minimizar seus efeitos. Daí a origem de todos os misticismos, de todas as crenças, dos bálsamos religiosos do espírito.

Há, contudo, um pedaço nobre de nossa vida que pouco está sujeito ao “nunca mais”. Este pedaço se chama História. Não há como garantir que nada vai se repetir quando o normal é que as pessoas tentem de novo. As pessoas sempre tentam de novo. É só ver as ideias nazifascistas grassando soltas no mundo de hoje. O voto na loucura e na maldade institucional calcada no ressentimento, no engodo político; a volta de regimes autoritários, a intolerância com as minorias, o racismo escamoteado, males apoiados por uma maioria obscurantista que pouco quer saber das consequências do que apoia.

A História sempre volta. O bem o e mal são cíclicos. O pensamento médio de uma época, que pode ser humanista ou bárbaro (cuja causa pode ocorrer por muitos fatores, principalmente econômicos e morais), nunca é definitivo. Se uma geração extirpa o mal, ele pode voltar na próxima. Assim como o bem. Resta a esperança de que, hora destas, o bem volte.

Dizer “nunca mais” para a História é uma bobagem. Mas para o indivíduo, é pertinente. E por isso temos esta ilusão: de que o mundo, o tempo, a História são iguais a nós. Não são! Não nos valorizemos demasiado. Não há como fugir das mudanças cíclicas da História. Compreendê-las e agir sobre elas é nossa obrigação. Contudo, também o é saber que a História pouco se importa com um único indivíduo. Vamos morrer. E logo outros assumem as rédeas do processo. Não somos insubstituíveis. Nosso tempo não é. A História não é. Se formos insubstituíveis para alguém, já é muito.

Estamos sempre muito próximos do “nunca mais”. Se não é para hoje, é para amanhã. É da vida! Há que se conformar. O certo é que o corvo de Poe está sempre gritando em nossos ouvidos. Nunca mais! Lutamos contra isso todos os dias. Na vida e na História. É o papel de cada um neste teatro. Mesmo que não adiante. O “nunca mais” de cada um virá, inexoravelmente. E o mundo seguirá sua sina de alternar o bem e o mal até que, se espera, o bem vença; o que, infelizmente, não é para agora.

Decidimos todos os dias a História do presente e, por melhor que seja, pode ser desmanchada pelo futuro. A História é um barco à deriva no tempo. Cada um de nós, um timoneiro perdido em suas contradições, fraquezas e loucuras. Acabamos de jogar nossa nau às pedras. E, para muitos de nós, será o último ato. Depois, nunca mais.
Nosso tempo é um breve suspiro. Temos compromisso com o presente e com a vida. Até ouvirmos pela última vez o corvo de Edgar Allan Poe: nunca mais, nunca mais!

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