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O que mais há em nós são medos e incertezas. E a memória joga com elas como se fossem búzios: os males que não vieram para bem; o coração, ilha perdida na imensidão do mar bravio dos sentimentos; a mente e suas tormentas, torrentes e ventania sobre nossa pouca terra firme. A memória nos ressemeia e somos sempre novos canteiros para ressentimentos e mágoas antigas.
Eu guardo em mim desassossegos que os anos trazem e não levam embora. Um jardim com pequenas sementes que sempre germinam a mesma guerra entre o que fiz e o que deixei de fazer. Não há armistício. Só a derrota e a capitulação de uma das partes. Vença um ou vença outro, somos sempre prisioneiros de um interior indômito e selvagem.
O que cada um traz em si é só o pó de uma estrada finita. O destino imprevisível e inseguro de uma nau à deriva; os olhos grandes das paixões, alvos das setas envenenadas da paixão de outros olhos grandes.
O que todos trazem em si é a lucidez invernal, seu frio e seu gelo. A lucidez e sua fome, sua sede, sua falta de ar. A lucidez e sua áspera realidade que a vida impõe. A lucidez sempre carece de um encanto para ser lúdica, lírica, poética, plena. E seu encanto é sempre outra vida lúcida, poética, plena.
Cada um empilha seus anos, uns sobre os outros, como a construir muralhas sempre prestes a ruir. Umas desabam sozinhas. Outras, mais poderosas, aguardam as hordas bárbaras para só então se desmancharem como algodão e flutuar sobre os corpos mutilados da batalha. Nada mais frágil do que os muros que cercam uma alma à espera de suas hordas bárbaras. Porque, de tempos em tempos, do fundo do fracasso da humanidade, reaparece outra humanidade que nos desciviliza, solapa o chão onde nossa vida estava bem alicerçada, devora nosso futuro e apaga os já vagos sinais de luz.
O que guardamos em nós, a memória joga na nossa cara. Essa dor no peito de quem nunca fez, de fato, tudo que podia; de quem às vezes optou pelo erro porque todo coração é narciso e todo espírito, egoísta. O arrependimento é uma flor cabisbaixa, pendida pelo peso da culpa. A vida bate à porta dos nossos dias todos os dias. E, às vezes, quando abrimos, quem entra são absurdos dias vazios.
A memória do menino que corria pelos campos, ora atrás de pássaros e outras fantasias, ora fugindo do próprio pai, faz parte dos escombros de tempos sombrios. Este retrato está pendurado na parede da alma, logo à entrada. Vejo-o todo dia quando chego dentro de mim.
O interior de cada um é uma masmorra; um lugar de onde não se foge. Não há indulto. Ali, até a inocência precisa de perdão. Culpa e inocência são ambas criminosas. Às vezes parece que, quando se olha um retrato antigo, alguém nos pede desculpas. Ou que nós pedimos desculpas a alguém. Olho um retrato antigo de meu pai e não imagino que ele me peça desculpas. Vejo um retrato meu quando criança e também não me vejo instado a me desculpar por não ter me transformado no menino que a infância prometia. Enfim, não há desculpas.
A memória joga conosco um jogo diferente a cada dia; sempre um jogo que não podemos ganhar. Trapaceira, às vezes traz um cheiro antigo, de flores e terra molhada; às vezes sons da meninice num trinado de um passarinho. É quando ela é mais vil. É quando ela insinua que ainda somos parte de um mundo que já nos abandonou faz tempo.
É quando já morremos com tudo ainda por fazer. A memória é uma casa antiga caindo aos pedaços, e ainda que doce, não podemos mais reconstruir.

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