A privacidade, assim como a conhecemos, é bem moderna em nossa civilização. Todos se lembram das latrinas coletivas das cidades romanas e bizantinas. Ah, e dos banhos, também coletivos. Norbert Elias escreve, em seu “O processo civilizador”, como aos poucos foi se dando esta, poderíamos dizer, construção do pudor, que passou por vários costumes como comer com garfo e faca e não mais com as mãos; deixar de correr nus pelas ruas até os banhos; tornar o quarto um ambiente mais recatado, onde antes entravam as visitas e as próprias crianças assistiam a intimidade dos adultos na maior normalidade.
A partir da metade da Idade Média, inicia-se uma marcha ao recato, à vergonha ao que é sujo e nojento, como escarrar no chão ou coçar-se nas partes íntimas. Aliás, as “partes” nesse processo foram se tornando cada vez mais íntimas.
O desenvolvimento da privacidade é um movimento longo, cheio de nuances e sutilezas que não cabem numa crônica, mas que culminou na maneira como a encaramos hoje, pelo menos até o advento da sociedade do espetáculo; do advento da fama como objetivo e sentido de muitas vidas por conta da força social do cinema, da idolatria a artistas, do rádio e da televisão. O público consumidor exigiu que, no estrelato, a privacidade não mais existisse.
A fofoca sobre as peripécias privadas dos ídolos tornou-se, da noite para o dia, o conhecimento mais importante que se tem que adquirir; e a busca de se tornar alguém como aquele que não tem privacidade, um sonho de consumo.
Aí veio a internet e, com ela, as redes sociais. Bom, daí… a privacidade foi pro saco. Muita coisa que já tinha deixado de ser pública voltou a ser, mesmo que ainda somente em chats privados ou nos reality shows. A privacidade alheia nos dá prazer.
Por isso, nas redes choramos nossas mágoas publicamente, ao mesmo tempo em que dividimos nossa alegria. Comunicamos que amamos e que deixamos de amar. Sempre há alguém ávido por contar porque sempre há alguém ávido por ouvir. Podemos saber da vida de todo mundo. As vidas dos artistas nem são mais cobiçadas como antes. Serve a do vizinho, dos nossos desafetos, dos antigos conhecidos que venceram na vida e daqueles que fracassaram por completo. Com o plus de que ainda podemos dar pitaco no perfil do fracassado e ficar quieto de inveja no perfil do vitorioso. As redes são uma festa de moralismos baratos e linchamentos cruéis.
Incivilizadamente, estamos perdendo a tolerância com o erro alheio, esquecendo que nesta vida todo mundo erra, e dissolvemos o outro na primeira oportunidade. A internet afinou nossa tara de usar a honra alheia como degraus de uma fama e de uma ética infames.
Impressiona também como a internet nos denuncia. Se você faz uma compra, logo recebe no celular uma propaganda da linha do que comprou; o celular diz onde você está. Se uma pessoa se aproxima de você e também está conectada, o Facebook percebe e manda para você uma sugestão de amizade. Antigamente se dizia: não existe segredo entre duas pessoas. Agora se diz: não existem segredos entre uma pessoa e seu celular.
Então assim, meu amigo: se você sair do banho e estiver se trocando com a janela do quarto aberta no vigésimo andar de um prédio e der de cara com um drone parado no ar com sua micro câmera apontada para seu umbigo (Quá!), você vai descobrir, como na iluminura medieval acima, que o diabo está vendo.

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