Nada mais literário do que a vida. No cotidiano e na realidade, estão todas as cenas necessárias para se contar uma boa história. Tudo em nós, em nossas vontades, desejos e atitudes dá literatura. Ao escritor, um voyeur nato, cabe observar. Pregar o olho no buraco da fechadura e deliciar-se com o que vê e ouve para depois deliciar os outros.
Na existência de cada um, histórias não faltam. Cada vida é única; seu desenrolar e pelo menos algumas passagens são dignas de literatura. O difícil é perceber. E depois contar. O papel do escritor é este: perceber e contar, da sua vida, do seu tempo, das suas relações e experiências, tudo que possa virar fantasia e deslumbrar o leitor, que se não for para deslumbrar, nem se escreva.
O russo Máximo Gorki disse: primeiro viver, depois escrever. Ou seja: quanto mais vida, mais literatura.
E se em uma única vida há tanta literatura, imagine-se numa família, numa cidade; quantas histórias esperam para existir nas páginas de um livro sobre Montenegro? Nada mais universal do que a própria aldeia, dizia Tolstói. Isto porque as angústias humanas, grandes e irresolvidas, são as mesmas desde sempre e em qualquer lugar do mundo: a finitude da vida, o sexo, a fé, a política, o amor, todos elementos de primeira grandeza literária e que cada um de nós traz dentro de si com um ácido corrosivo e, ao mesmo tempo, como potência vital que nos impulsiona e torna a vida a maravilha trágica que é.
Claro que o trabalho do escritor, mesmo de um mero cronista, não é simples. E não deve ser mesmo. De simplismos o mundo está cheio. É mais do que compilar cenas e fatos; seu desafio é costurá-los de forma que se tornem outra realidade, diferente daquela de onde foram retirados e, mesmo assim, fazer com que permaneçam fortes, vivos e capazes de emocionar e provocar no leitor a discussão sobre a condição humana. Escrever é recriar o mundo, mas ainda um mundo humano de onde sua matéria-prima foi extraída.
Para escrever, não basta olhar o mundo. É preciso olhar e ver, dois verbos distintos. Ver é quando se olha também com a imaginação. Um dia, há muitos anos, fomos, eu e meu pai, ao cemitério preparar a sepultura de um tio recém-falecido. Meu pai pedreiro e eu ajudante. De repente, reparei numa mulher que, ajoelhada, gesticulava muito. Punha as mãos sobre um túmulo, baixava a cabeça sobre ele como se rezasse, depois levantava os braços. Também chorava e falava alto, mas, à distância, não compreendia o que dizia. Aos poucos, seus gestos ficavam mais desesperados. Decidi me aproximar e ver se precisava de ajuda. Então ouvi: “Por que tu foi embora? Me deixou sozinha. Eu não consigo mais…”.
Perguntei se ela estava bem, se precisava de algo. Ela se virou para mim, secou as lágrimas e disse: Não!, e foi embora. Ficou contrariada porque testemunhei seu desalento e desconsolo. Não queria fazer de seu sofrimento uma página para outros olhos. Mas que estava fazendo literatura, estava! E, portanto, a cena não era mais dela. Dali em diante me pertencia.
A arte foi inventada para fantasiar a vida. Escrever sobre ela é como um rito de passagem, como uma dança da fertilidade. Todo livro representa uma tribo em volta de uma fogueira ouvindo os ecos da própria humanidade na voz de seus bruxos.Um bom livro é sempre uma alma em chamas contada de si na voz aconchegante de um velho acariciando nossas fantasias e angústias para nos ajudar a viver.
O tipo de velho que eu gostaria de ser.

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