Pantaleão, personagem de Chico Anysio, tinha prazer em ser um mentiroso, preceito básico para uma mentira pegar. Contava seus causos fabulosos e perguntava à esposa: É mentira? Ela respondia: Verdade!
Cada um acredita no que quer e isto é uma verdade soberana. O mistério é por que as pessoas acreditam em fantásticos ataques ao bom senso e à lógica e se entregam, a si e ao que é seu, a lorotas e conversas fiadas. É certo que fábulas e histórias sem pé nem cabeça povoam nosso imaginário desde a infância, mas daí engolir absurdos como verdades, vai um abismo. O mundo fabuloso tem seu lado bom, que fomenta nosso gosto por histórias, pelo assombro das lendas; porque instiga nossa criatividade. Porém, há momentos da vida em que é preciso separar ficção (e a boa ficção é sempre uma mentira bem contada) de realidade.
O engodo e a enganação sempre fizeram parte das vitórias tanto nas guerras quanto na política. Talvez por isso, acabamos por ver nas mentiras bem aplicadas apenas estratégias e armadilhas montadas pelos mais aptos. Fazemos, é verdade, alguma seleção moral e ética, mas, no fim, a origem e o objetivo de tudo acabam sendo os mesmos: levar vantagem e vencer. Do pescador que quer causar inveja a quem não foi pescar e conta de peixes que não pescou, ao malandro que aplica o conto do bilhete numa velhinha e leva seus poucos trocados. A ganância pelo ganho fácil é a chave para a velha perder seu dinheiro para o “mais apto”, o estrategista da guerra do cotidiano. Condenamos o segundo mentiroso, também um ladrão, mas, no fundo, os princípios de um e de outro revelam o poder e o sentido da arte de enganar.
Assim como nas guerras, na política a informação falsa é uma arma letal. Sempre há quem acredite mesmo na mais infame inverdade, na mais mal manipulada informação, na condenação mais inconsistente e sem provas. O uso da ingenuidade e da inocência sempre foi uma tática para disseminar medos do que não existe para decidir o enredo do que existe. Cremos sempre que o mal é culpa dos outros e que, se os destruirmos, teremos um mundo melhor. Daí às atrocidades é um passo.
A vida em sociedade e seu jogo de aparências em muito é uma mentira. Estamos sempre tentando parecer aos outros o que de perto não somos. Como o animal primitivo que arreganha os caninos para amedrontar seu adversário, mudar nossas verdadeiras feições, as feições de nossa alma e dos nossos sentimentos, também pode funcionar como um ardil na busca do prêmio de um status melhor.
Quando Ulisses fugiu da Tróia destruída depois do grande fakenews que fora aquele cavalo presenteado pelos gregos, ele acabou numa ilha, onde foi capturado por um ciclope. O ciclope perguntou seu nome e Ulisses disse: Ninguém é meu nome. Quando ele cegou o único olho do ciclope, esse urrou por seus companheiros que vieram ao seu auxilio e lhe perguntaram: quem lhe fez mal? O ciclope respondeu: Ninguém me fez mal. E seus amigos foram embora. Ao mentir seu nome, Ulisses enganou seus inimigos e conseguiu fugir.Uma lição moral copiada milênios afora.
Talvez por isso, nem a Justiça, nem o Direito, nem a imprensa conseguiram derrotar a mentira como arma estratégica de poder. Veja-se o Brasil, onde o lado humanista do país afunda na lama perversa de sua desconstituição social.
Por fim, se quando Pantaleão perguntava à esposa “É mentira Terta?”, ela respondesse “Sim, é mentira!”, o que poderia ser de nós hoje?

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