Desde que ela partiu, tenho tentado manter as coisas como eram. Suas roupas continuam no armário. Suas recordações de infância e família, boletins de escola, diplomas de formatura, até cartas de ex-namorados, tudo está na mesma caixa em que ela pôs. Os vasinhos de violeta na janela, as suculentas e samambaias espalhadas pela casa e pelo jardim… Algumas morreram. Eu as rego e cuido, mas não tenho a mão dela para flores e plantas.
Não, não reclamo nem choro. Fiz uma armadura de silêncio que mantém a dor presa no peito e que hoje, só hoje, estou despindo. Não olho nossos retratos. Saio para trabalhar e volto à noite, fazendo da rotina um compromisso com a vida. Cozinho uma janta frugal e bebo sozinho.
Em alguns destes momentos, faço um balanço do que aconteceu e do que a levou àquela decisão intempestiva. Lembro-me do exato instante, do exato motivo que precipitou tudo e que levou aquele dia a ser um dia que nunca acabou. Depois respiro fundo, lavo a louça e deito de olhos abertos no escuro.
Desde que ela partiu, uma certa leveza que havia em tudo desabou num peso rotundo, como se fossem os grilhões presos às canelas de um degredado. Sua risada, sempre tão espontânea, nas entranhas de minha solidão se transformou num quadro amarelo na parede. Suas carícias, suas palavras doces, tornaram-se ecos da alegria caindo num grande abismo. O arfar de seu gozo alegre virou a saudade indizível dos indignados e arrependidos.
E agora que a vida fez esta pausa de seus abraços e o amor calou seus gritos, seus discursos, seus calores, nossos ventres em movimento, não esqueço quem me deixou assim. Nem quero. Desde que ela partiu, sou aquele que ficou para proteger o passado dos bárbaros do nada, da insignificância do que desaparece. Tornei-me o guardião de uma felicidade que vai minguando porque não tem como não minguar. Desde que ela partiu, fui desaparecendo também, em cada borda do silêncio da casa, em cada uma de suas flores mortas, em cada coisa dela que, aos poucos, não consigo mais lembrar.
Do tanto que ela era, do tudo que ela abarcava, restou somente uma penumbra; um vestígio sutil de um tempo pleno, quase tão soberbo quanto a felicidade.
Não preciso dizer a ti o quanto a amava. Não a ti, que a tudo viste, que de tudo participaste. Tu que sabias de tudo e mandaste calar os tolos. Os tolos que não concebiam um amor assim, tão perto do nada, tão sempre à beira do fim.
Antes tudo tinha um propósito, um sentido. Havia uma razão para trabalhar, para ajeitar a casa, para fazer uma comida gostosa e diferente; havia uma razão para acordar pela manhã, sair e voltar. Agora é tudo difuso e esmaecido; luzes que não iluminam as formas abstratas e inseguras de uma única silhueta. Só resta a obrigação de buscar incessantemente motivos que de resto são sempre banais, rasos e estúpidos.
Tu sabes do que falo. Quem não sabe, pouco significam. O que digo não busca compreensão nem compadecimento que, nestes casos, nem é um sentimento nobre. Mas hoje, hoje eu quis dizer estas palavras como voz tombada por circunstâncias que não importam mais. Hoje eu quis fazer esta crônica, uma crônica surda como se fora um grito que não sai da garganta nem se escuta.
Hoje eu quis fazer, do meu jeito, uma crônica para o infinito.

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