Ana Clara Stiehl
Cronista

Queria comemorar. Simbolicamente tudo está mudando. Há muito se sabe da senciência dos animais: eles sentem a vida de forma consciente. Sofrem. E como! Num mundo dominado por gente, engolido pela tecnologia, aumento populacional, globalização, progresso, temos o papel, como indivíduos e sociedade, de nos responsabilizar pela vida de quem sofre as consequências de tudo o que nos tornamos.
No Brasil, tudo indica que, logo, animais deixarão de ser considerados “coisas” pelo Código Civil, tornando-se sujeitos de sua própria existência. Tramita agora mesmo um projeto de lei nesse sentido. Quem convive com eles sabe muito bem o quão incríveis são, tão diferentes de nós e, inclusive por isso, tão grandiosos. Conseguem superar o que nós mal conseguimos. Conseguem sobreviver apesar de nós. Apesar, sim. Porque somos um obstáculo a todos que tentam dar certo nesse planeta.
De um lado, a certeza de que os animais são conscientes da vida que os rodeia. Sabemos que eles sentem dor, mesmo aqueles animais que parecem imbatíveis, indestrutíveis. Dói. Nós sabemos. Sabe o que mais? Mesmo sabendo e, ainda que recente na história, admitindo que sabemos, tem gente que quer liberdade para caçar animais silvestres. Num país em que isso é proibido. Num país em que incontáveis vidas são ceifadas, todos os anos, pelo tráfico de silvestres e caça ilegal. No país com a maior biodiversidade do mundo.
Duas situações completamente excludentes uma da outra. Agora, a cereja do bolo que está sendo servido aos palhaços silenciosos e incrédulos: duas ideias que se opõem em sua essência, exatamente no mesmo contexto histórico. Repito: ao mesmo tempo, no mesmo país. Como se não bastasse, há a displicência do poder público com as florestas engolidas pelo fogo; só virou problema quando virou notícia. Animais queimando vivos, tendo seu habitat destruído como se não fosse tudo o que eles têm. Como se não fôssemos, todos, filhos da mesma terra.
Somos e sabemos que somos. Também entendemos o retrocesso a que estão nos levando, deitados eternamente em berço esplêndido enquanto acabam com o que ainda resta de florestas, biodiversidade, empatia e dignidade. Dói ver a fauna e a flora queimando nos olhos ávidos de quem já não tem alma.
Nossos animais sofrem, sentem, são. E nós temos que fazer alguma coisa. Gritar por quem não consegue, pelos que não têm voz, ou a voz se perde no meio das chamas, no tiro que cala. Gritar pelos animais que são abandonados todos os dias, por políticas públicas que evitem a superpopulação. Bradar por questões de saúde pública, pela dor dos que não conseguem explicar, em palavras, o que estão sentindo. Defender o abate humanitário, o bem estar dos animais de produção, a sobrevivência do que nos restou de área de terra natural e refúgios da vida silvestre.
A senciência esfrega na nossa cara o que nos recusamos a ver: somos responsáveis. É nossa obrigação tomar partido. Se não tomarmos, que sejamos capazes de deitar a cabeça no travesseiro, ao lado dos nossos animais de estimação, e pensar: todos os outros não importam. Será que conseguimos?
A vida importa. A dor é de todos, o sol é para todos. Eles não são coisas e merecem viver a vida como ela deve ser vivida, ou o mais próximo possível disso. Não sejamos fracos a ponto de sucumbir aos monstros que nos dizem o contrário. Mesmo os disfarçados, vestidos de terno e gravata, escondidos sob o manto do Estado.

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