Vocês já repararam nas pessoas? Claro que já, né. Todo mundo repara em todo mundo. Às vezes para admirar, para ver as coisas boas; outras só para apontar o dedo mesmo. O certo é que, se o inferno são os outros, sem este inferno não se vive. Só que as pessoas não são, geralmente, só isso que a gente vê nelas na primeira olhada; a estampa superficial, que é o que todo mundo mostra. As pessoas têm outras por dentro. As pessoas são múltiplas e julgamentos à primeira tendem a falhar.
É verdade que há pessoas que nos ajudam a ter uma boa impressão delas já na largada. Ou porque são inteligentes, ou porque são gentis, compreensivas com nossas fraquezas e sensíveis com nossas qualidades, ou por tudo isto junto. Outras insistem em fazer o contrário. Ou porque pregam a estupidez como norma social, ou porque são chatas, ou porque se encarnam na gente como psicopatas. E psicopatas são para sempre.
As pessoas não estão sempre certas. As pessoas cometem erros. Uns graves, outros nem tanto. Muitos aprendem com o erro e não o repetem. Outros insistem em reincidir. Algumas pessoas tomam consciência dos equívocos naturais a que a vida nos leva; outras perseveram neles só para não dar o braço a torcer enquanto a vida lhes torce os pescoços.
As pessoas nos esquecem, nos abandonam. Tanto como cada um de nós esquece e abandona. A busca da felicidade e da sobrevivência é um trator de moer carne. E vamos pilotando e dilacerando na medida da necessidade; a necessidade, mãe de todas as batalhas.
As pessoas são vaidosas. O belo sempre foi fonte de prazer. As pessoas são, sim, capazes de lirismo, da mais pura poesia, não da escrita, mas da ativa, aquela que se traduz em atos, em solidariedade, em incentivo, em parceria, em tolerância.
Vocês já repararam como as pessoas são diferentes? Sei que repararam. E em como uma mesma pessoa se torna diferente dependendo da situação em que se encontra, do ambiente ou com o passar dos anos. A arte de mudar é eterna; o que ontem era uma verdade, pode não ser amanhã, e as pessoas mudam conforme mudam seus valores.
As pessoas nos perdem e nos conquistam, nos fazem rir e chorar. Seduzem-nos com seu tom de voz e, com a mesma voz, mas outro tom, fazem com que as odiemos. As pessoas querem parecer inteligentes. Temos opinião sobre tudo, principalmente sobre o que nunca estudamos nada. As pessoas são uma festa da incoerência e da “sem noção”.
As pessoas são personas, personagens mascaradas da própria vida. Máscaras que nos fazem heróis de brinquedo e hipócritas de verdade. Máscaras que nos tiram o rosto e escondem a alma. Nem nós sabemos quem somos realmente. Somos sempre uma charada, um enigma a ser decifrado. Por isso, na verdade, estamos sempre sós.
Este mistério faz da vida a riqueza que em breve abandonamos, não sem pesar. As pessoas ficam doentes, envelhecem e logo são descartadas, exiladas da convivência das outras pessoas num quarto escuro ou num asilo.
Por isso, já avisei a família. Se eu estiver inválido, mas lúcido, podem me internar. Levo comigo o laptop. Daí, entre uma troca e outra do fraldão geriátrico, quem sabe eu ainda possa ter um espaço num jornal e escrever causos de antigamente da velharada. “The Asilos’s News”. Não vai faltar história! E, assim, continuar no mundo das pessoas. Claro, se o editor de algum jornal achar bacana.
O que tu achaste deste brete, hein, Maria Luiza Szulczewski?

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