O poeta chileno Pablo Neruda publicou, em 1974, “O livro das perguntas”. Um livro aparentemente simples, mas que remete ao ponto chave da filosofia e que trouxe a humanidade a este patamar: a dúvida como motor do intelecto. É perguntando, e talvez sem necessidade de resposta, que nos deparamos com a fulgurância do universo e com as maravilhas da vida.
Sua leveza, seu lirismo, a ruptura singela das perguntas enquadram a publicação de Neruda como livro de poesia. E o que seria mesmo perguntar se não uma forma de poesia? Dentro deste viés, pode-se destacar: “A quem posso perguntar o que vim fazer neste mundo?”, ou “Onde está o menino que eu fui? Está dentro de mim ou se foi?”. Ou uma mais debochada: “Quantas igrejas têm no céu?”. E por aí vai.
Guardadas as proporções e levando em consideração que todos os dias surgem novas dúvidas a se juntarem aos velhos questionamentos que há milênios nos assombram, poderíamos aqui brincar de Neruda e fazer uma crônica das perguntas.
Se o menino da pergunta do poeta ainda está dentro de nós, poderíamos perguntar: Por que não posso continuar brincando? Já se o menino dentro de nós se foi, a pergunta muda: Por que eu deveria continuar brincando? Cada resposta enseja uma nova pergunta no redemoinho da vida.
Para onde vão os sonhos quando os esquecemos? Para onde vai a memória quando morremos? O que me fez te encontrar e o que te fez me abandonar? Para onde foram as coisas que a gente não acha mais? Quais são os músculos do riso e quais os da tristeza? Por que os anos desenham sulcos no meu rosto?
Temos uma queda por perguntas sombrias, mas elas podem sim ser iluminadas como… como… É bem mais difícil fazer perguntas iluminadas.
O que é mais fácil? Fazer perguntas ou obter respostas? Sim, é mais confortável perguntar. E se é verdade que são respostas que buscamos, é preciso ter cuidado. A pretensão da sabedoria é uma fonte perpétua de armadilhas da soberba. Inobstante, as queremos. Há perguntas sem resposta? Deve haver, mas esta crônica não sabe ao certo. Há perguntas que não querem calar? Todas! Não se devem calar perguntas.
Por todo caudaloso rio do tempo, o homem foi um perguntador. Um chato, constante e veemente perguntador. Ante à impossibilidade de uma resposta, contentou-se até com um: “tudo bem, só perguntei por perguntar?” Ante uma grande pergunta, uma resposta pode até ser desnecessária.
Por fim, não é só a versão poética e mágica da existência que nos inspira grandes perguntas. A realidade é outra fonte inesgotável de questões nada supérfluas. No Brasil há, pelo menos, duas perguntas que pairam como obuses sobre nossas cabeças e cujas respostas talvez nem queiramos saber. Uma: Como o país foi cair nas mãos da demência? Outra: Que males esconde um cidadão de bem?
E a mais surrealista e que esta crônica perguntadora não poderia deixar de fazer: Cadê o Queiroz?

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