Escrever é uma luta contra o vazio. Cada palavra, frase ou texto gera um novo significado. É, portanto, um novo corpo no mundo. Há sempre o que dizer sob um novo viés, sob outro verniz. Contudo, e pior de tudo, há dias em que não se tem nada a dizer.
A esta hora de quinta-feira, à beira do limite de entregar a crônica, penso no que escrever. Poderia, por exemplo, baseado nestes ataques às minorias, principalmente indígenas, no Brasil de hoje, escrever sobre a extinção da tribo dos Yahis ocorrida na Califórnia entre 1866 e 1867. Dois mil integrantes foram dizimados em quatro ataques, por não mais de 17 colonos brancos. No último massacre, somente quatro vaqueiros encontraram os últimos 30 índios Yahis escondidos dentro de uma caverna. Mas dificilmente se verá que este é um assunto que nos remete ao presente. Então, deixa pra lá.
Também poderia escrever sobre esta tal escola sem partido, uma aberração do empoderamento que se tem dado à ignorância nos últimos tempos. Como se um professor que estudou anos para ser capaz de preparar uma aula para desenvolver o raciocínio crítico, estivesse “doutrinando” crianças para um pensamento único, quando se sabe que não são as escolas que doutrinam para o pensamento único no Brasil. Em épocas obscurantistas, falsos profetas e moralistas fanáticos proliferam como moscas. Enfim, como disse Montaigne há 500 anos sobre a escola: “Se não atrair a vontade e a afeição, se consegue apenas asnos carregando livros”. Contudo, também não é um assunto que eu seja capaz de desenvolver.
Quem sabe pudesse escrever sobre as ruas de nossa cidade. Em como mudaram nos últimos cinquenta anos. Quando se jogava bola no campinho da Rua Ernesto Zietlow. Quando se descia pela Ramiro Barcelos e se via cavalos bebendo água no bebedouro ao lado do bar do Zé. E se passava pela antiga rodoviária na esquina da rua Santos Dumont com seus ônibus de cinema dos anos cinquenta. E se chegava ao Café Central e se via seus frequentadores jogando xadrez no tabuleiro pintado nas mesas com gavetas, onde guardavam as peças. E quando se continuava até a beira do Caí e o apito do frigorífico marcava a hora para a cidade e se via aquele mar de trabalhadores saindo em suas bicicletas e nós, meninos, chegando para as pescarias e os banhos de rio de final de tarde. Poderia, sim, falar sobre isso, mas quem quer saber da nostalgia dos tempos idos? Ninguém!
Não há muito mais o que dizer no Brasil do velho com cara de novo “toma lá da cá”!
Poderia escrever então sobre aquilo que não pareça uma ameaça ao pensamento único. A diversidade da poesia e da ficção, por enquanto, é tolerada. E tivemos um 2018 cheio de livros, escritores montenegrinos presentes com seus leitores, inclusive em outras cidades do Estado. Um momento rico de autores oriundos dos bancos escolares plurais e democráticos. A melhor escola!
E no dia 27 de dezembro, haverá sessão de autógrafos e sarau poético-musical para a apresentação da antologia de poemas “Corações de Papel”, lançada em Curitiba, livro em que dois autores montenegrinos marcam presença. Poderia, sim, falar sobre isso, em como o cantar poético da vida não para; em como é importante para uma cidade ter seus escritores ganhando o mundo. Mas também não queria falar sobre isso.
Na verdade, nada há de novo a dizer no país dos enganados. Mas consegui chegar até o fim. Sem dizer coisa com coisa. Uma façanha!

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