Cara, hoje eu tô com preguiça demais pra essas suas deprês..
Você me dá sono. É. Sono, baby.
E não me diga que está tarde, porque nem é, assim, tão tarde pra eu estar com sono. E não me diga que eu bebi, porque hoje eu nem bebi nada, nem um chá, um leite; nem um Bourbon. Não tentei ler meu livro, aquele que você nunca deixa porque seus problemas são tão maiores e mais importantes do quê. O jornal. Eu não espiei o jornal, o horóscopo, sequer; mas se tivesse espiado, se eu tivesse lido, com certeza saberia, estaria ali, escrito, que você me dá sono. E, também, não é novidade; não precisa vidência, nem astrologia, nem nada, pra saber dos seus bodes. Pra saber que tem sempre alguma coisa encanando: um novo pacote econômico, a velha falta de dinheiro; que comeu carne demais, não devia ter comido carne; queria ser macrobiótico; tá comendo pouco e se entupindo de crenças. Que você parece uma palestra que não tem fim, um filme de três horas; sem intervalo. Uma viagem interminável pra lugar nenhum. Um incômodo. E tem sempre aquele ranço; um vazio; contraditório, porque você está sempre cheio de alguma coisa, nem que seja de uma aridez vital, uma desilusão, ou derrota, tristeza. Uma lembrança desabitada, áspera. Um sentimento infértil. Não há remédio pra saco cheio; e eu estou de saco cheio de você. Da sua pseudointelectualidade, da sua falta de noção, desse moralismo barato e escuso, do seu mau humor. Mau humor me deixa de mau humor, baby; me dá sono. E essa coisa de tentar preencher a qualquer custo esse poço vazio aí (aqui); onde? Um retiro; recluso, não quer ver ninguém. Pensa em viajar pra Sibéria. So cold. De volta, dorme com uma, com outra, com três. E eu fico pensando: será que dá sono em quem dorme com você também? Será? E compra uma moto, então. Troca de casa, de emprego. Muda o cabelo. Mas aquilo, o vazio ou o preenchimento?, lá dentro continua… Essa onda, que é quase um surto; eu sei. Malditos comprimidos e mapas astrais que te fazem ficar numa nice por algumas horas, até cair a ficha de que, sim, touro vai entrar em escorpião. Mas isso não é garantia nenhuma, não é? Charlatões e um bocejo. Tanto faz? Sono. Adenosina e melatonina; nome e sobrenome; desinteressante, apelido. Preciso oxigenar o cérebro. Me nego a deixar as pálpebras caírem diante de você. Problemas são países longínquos e esse papo furado se desmancha entre nuvens pastosas e encarnadas. Almofadas de cetim e uma outra dimensão se abrindo; uma fuga de você…
Deixa rolar. Você insiste nessas, baby. Insiste demais.
Você me dá sono. Repito cada vez que me olho no espelho.
Melhor ir dormir.
Night.

Crônica do livro Caio em Mim.

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