Foto: Reprodução da internet

Se eu bem te conheço, deve estar me mandando à merda. “Onde é que já se viu? Querer mandar até no que eu escuto?”
Não se trata disso. Bem sei que tu não gosta de bossa; nem eu gosto tanto assim também. Talvez tu nem tenha um rádio, iPod ou outra parafernália onde pudesse ouvir a melodia desse momento… Eu só achei que combinaria: essas minhas palavras e o chorinho do violão.
Mas não, meu amor, eu não vim aqui pra te afrontar. Esse é um desabafo manso, uma carta daquelas que falam baixinho. Daquelas coisas pra ler e reverberar ouvindo bossa.
Eu só queria confessar algumas coisas às quais, antes, eu silenciei.
Acontece que eu nem te conhecia. Não! Eu não te conhecia ainda, mas eu te via na estação, todos os dias, pegando o trem das 19h37. Logo já éramos velhos conhecidos. E eu tinha contigo essa intimidade do cotidiano, de saber que, se chovesse, tu usaria botas de borracha e, se tivesse vento, enrolaria um lenço verde no pescoço; ainda assim estaria com tosse. E eu pensei que sorte, que mulher! E eu já queria chamar a tua atenção e falar contigo. Queria agarrar a tua cintura e te dar um beijo. Eu te queria; foi uma equação muito simples desde o primeiro minuto.
Mesmo tendo carona, mesmo chegando mais cedo, eu permanecia lá, na estação, a tua espera; à espera do trem das 19h37. Fiz até uma tese pro doutorado, te citando: a menina do trem das 19h37. Meu orientador riu e disse que eu estava misturando dois mundos. Mas o que fazer se eu só trabalho, estudo, como, vivo pensando em ti? Eu não passo de um artista, ensaiando esse texto, só pra poder falar contigo mais uma vez…
E, qual a minha sorte, quando reparei na tua conversa com a Nina: três beijinhos e muitas histórias. E foi aí que eu pedi, eu implorei que ela me dissesse teu nome, e resolvi arriscar:
– Oi Bia! Lembra de mim, João, amigo da Nina?
É claro que não lembrava. Mas entrou na minha conversa e eu fui entrando na tua vida, como quem persegue uma lembrança que nunca mais voltará. Tornamo-nos amigos, e logo já estávamos embarcando no mesmo trem. Tornamo-nos cúmplices, amantes e, agora isso: desconhecidos.
Eu tinha muito mais pra te dizer, mas, quem sabe com outra música, num outro momento?
Passa da hora. O trem já partiu.

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