O mar quando quebra na praia
É bonito, é bonito (Dorival Caymmi)

A gente sentava à beira d’água e ficava conversando por horas. Da primeira vez que fomos para a praia juntos, eu perguntei se ele também sentia o gosto salgado que vinha do mar, e foi aí que ele me explicou o que era maresia; nós dois abrimos a boca e aspiramos o oceano. Depois rimos muito e nos jogamos para trás nas cadeiras de preguiça, como ele chamava, e falamos do céu. Céu e mar, lá no fundo, são uma coisa só. Um infinito, assim como a saudade, que também é um mar dentro da gente.
Um mar dentro da gente; feito de lembranças, de momentos, os quais já não há ninguém além de mim a testemunhar. E, desde então, desde que não há mais ninguém, além de mim, para testemunhar os nossos momentos, eu me impus essa tarefa de pensar nele todos os dias – mais especialmente, nos dias em que vejo o mar. Para não esquecer.
E, se eu tivesse que fazer um retrato falado (faz tanto tempo!), falaria de vestígios. Eu diria que ele tinha uns olhos, assim, lindos, azuis, e que a gente não tinha como olhar n’aqueles olhos sem sorrir; às vezes, eu pensava que ele era um anjo, com cachinhos e tudo, quase um clichê, um lugar-comum do que os avós e os anjos são, e que veio ao mundo só para cuidar de mim. Era de leão, assim como eu; um anjo de leão, ele. Num breve resumo, eu sempre soube que ele era mais a calmaria do rio e, eu, a braveza do mar; que ele tinha um barco laranja que, depois de muito tempo, encalhou na grama do nosso jardim, e que, por fim, já estava numa idade em que tinha mais histórias a contar do que por viver.
Sua herança, o aprendizado. Melãozinho-de-são-Caetano, unha-de-gato, dinheiro-em-penca. Memórias compostas. Do doce de abóbora no cal e do pepino em conserva, a lida. Quaresma, pitanga e jabuticaba, o gosto. Café e uvas no quintal. Alamandas e glicínias na varanda. Descansar na sombra da amoreira; azaleias preferem o outono. Pequenas memórias e um grande amor…
A saudade, quando quebra na praia, é bonita, é bonita. Amar o mar; maramor. A maresia e outros causos da gente.
Depois de muito tempo, teve um dia em que a tristeza finalmente foi embora; cedeu lugar a outros e novos sentimentos. Meu olhar pra ele sempre foi de ternura e gratidão. Ainda é, junto com um olhar de saudade. Faz 25 anos que o vô Hélio se foi; nesse tempo todo, sempre que penso nele, nossas lembranças transbordam, e eu choro. Aonde quer que eu esteja, sinto o gosto salgado dos meus olhos marejados.

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