Uma das primeiras crônicas que escrevi aqui para o jornal intitulava-se “Se essa rua ainda fosse minha” e percorria as memórias do lugar onde eu cresci.
Morar hoje n’outro canto da cidade significa trilhar novas lembranças, para além de um outro lugar, de outros e novos tempos. O futuro chegou para todo mundo.
As casas da minha antiga rua me parecem cada vez mais tristes: um amontoado de tijolos, cujas histórias desconheço. O céu de outrora, tela azul riscada por pandorgas coloridas, está borrado por um emaranhado de fios.
Assim, também, onde eu moro não me parece feliz: há tijolos amontoados, há um céu cortado por fios, mas, diferentemente da minha antiga rua, aqui não residem recordações da minha infância. A rua da gente é o lugar onde crescemos e, ao contrário das minhas saudades, o presente pode parecer hostil. Certos carinhos, porém, fazem um bem enorme e nos aproximam das perspectivas passadas, fazendo a gente se sentir em casa, mesmo a quilômetros de distância do ponto de partida.
No início do mês, estive em Torres, conversando com 8º e 9º anos do Instituto Estadual de Educação Marcílio Dias sobre literatura, e fui surpreendida pela releitura de algumas recordações, compartilhadas no livro Caixa Preta.
Fui arrebatada, em especial, pela doçura com que interpretaram “As Roseiras Permanecem”, pintando com nuances diferentes das minhas o texto que escrevi para a minha mãe. Além disso, os alunos aproximaram o lirismo da epistolar “A Literatura te Salvará” do seu universo adolescente, transformando a crônica em um episódio de Star Wars.
Por esses dias, também, tive o privilégio de participar da sessão de autógrafos do novo livro de Carlos Fernando Leser, com belíssimas ilustrações de Cíntia Freitas, “Esta Rua não é Minha”, que já inicia com uma dedicatória do poeta a sua avó, Morena, cúmplice das suas melhores memórias.
O livro nos convida a resgatar e o compartilhar a nossa infância. Poesia para as nossas crianças, mas quem de nós não há de se lembrar dos jogos de rua ou das brincadeiras no jardim?
“Será que a cabeça de vento/ Voa bem alto do chão?
Será que o amor se aquece/ No fundo do coração?”
Esta rua não é minha, com certeza não é mais, lembro, ao passar pelas minhas antigas calçadas. Contudo, apesar das lonjuras, as minhas recordações estão bem presentes.
Ainda mais quando revisitadas através dos olhos das crianças e dos poetas.

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