Dia desses ela me disse que ciúme é uma doença. Eu ri, meio que duvidando, meio que desconfiando de que, sim, ela tem razão, e de que eu ando meio adoecido.
O fato é que eu penso demais nela. No seu rosto bonito, nos seus olhos acintosos, que me lembram travessia, travessura, travesseiro. Traição, eu viajo. Ela fica; com quem? Penso noutro fuso horário; noutra cama. O quão longe posso ir? Devaneios insones, e me ponho a presumir montes de coisas. Presságios. Perco o sono, por ciúme; vejo fantasmas; eu bebo café. Ando pela casa à procura. Feitiço, só pode. Que macumba é essa? Desconto meu desconcerto nos astros: ela é de virgem; eu já devia saber.
Uma ressalva: eu a amo! A detesto. Cê tá louco? Com ciúmes. Um receio que não é prova do meu amor, eu sei, mas da minha maior fraqueza. Um ardil. Ela. E todos os outros são o inimigo; todo olhar, sorrateiro. A desconfiança, uma algema. Dormir com os pés destapados; com as janelas abertas, frio e ódio entrando. A elucubração do amor; dormir abraçado às suspeitas. Minha inquietude é uma varanda na noite de Copacabana, um arrepio gelado de madrugada e sereno pesando sobre mim. Disfarçada de maresia, a fumaça do cigarro que vem da outra varanda invade tudo. Sufocado pelo ciúme, que é o sono perdido no início da noite, escrevo o primeiro parágrafo que antecede a vigília.
E na sua cabeça você é visto como uma banana. Não um banana, bobo e atrapalhado, mas como uma fruta, que tá lá na fruteira, disponível, e vai ficando, porque é barata demais, ou porque tem uva, morango e manga. E ela, claro, prefere experimentar o diferente, prefere uva, morango e manga a você, banana! Quem não iria preferir? Mas é fato que o tempo passa, e a uva passa, o morango e a manga acabam, e um dia ela acaba olhando pra você, uma banana, a esta altura cheio de drosófilas; e essas drosófilas atendem pelo nome de ciúme. Toda desconfiança é um personagem de Machado de Assis. Riscar o carro do sujeito; chorar à janela da amada. É arrepender-se. Pedir perdão todos os dias e acordar paranoico novamente. Quem é a pior pessoa do mundo, eu ou você?
Minha suspeita é a gabardine amarrotada, a sua grande boca vermelha movediça. Jake LaMotta lutando, um filme do Scorsese. É o marfim das paredes do meu quarto e todas as projeções que sou capaz de alcançar.
O ciúme é meu animal de estimação. Eu o alimento e ele cresce.
O ciúme é uma fera dormindo aos meus pés, enquanto eu perco o sono. Pensando nela.

Texto integrante do livro Caio em Mim, homenagem da Master Class- Santa Sede a Caio Fernando Abreu.

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