Não sei bem quando tudo começou. Desconfio daquele dia em que a professora de matemática ensinou a coisa dos juros.
Foi no dia D. Ou no dia F, como eu passei a chamar depois de algum tempo. F de fatídico, de fatal, de funesto. F de. Naquele dia em que a gente cabulou a aula de matemática pra comprar os ingressos do show do Rappa. Nesse dia ela ensinou juros e, mais tarde, a gente descobriu que a vida sempre cobra. Nesse dia ela sentenciou: vou acabar com a vida deles em suaves prestações. Primeiro veio a nota, mais tarde a ausência delas. Tínhamos apenas treze anos e, depois disso, não teve sorte, nem talismã, nem dinheiro que bastasse, que desse conta das nossas contas. A mulher nos rogou essa coisa, chame como você quiser, um algoritmo que faz a gente cair no cheque especial sempre no oitavo dia do mês, contrair empréstimos bimestrais e passar meia semana contando moeda pra comprar o pão nosso de cada dia. E viver com a cabeça sempre cheia, de problemas, bebidas e ideias furadas.
Mas, e se? Parasse tudo de uma vez. Não como daquela última vez, daquela última greve. Não como daquela vez em que ficamos sem gasolina e, que descoberta!, deu pra continuar vivendo pr’além dos números negativos de sempre. E se mudássemos o cômputo final? As adversidades que dividimos, essa ânsia compartilhada. Essa coisa de trabalhar meio ano apenas pra pagar o imposto. Eu sei que vão dizer: coisa de gente preguiçosa que bebe no mesmo copo, e da mesma água, e que, logo, tá se transformando num apêndice do outro, uma enxertadura, pequena mutação. Parasita, chame como você quiser. Chame por outro nome. É uma outra cara, mas sempre a mesma expressão multiplicada. Outros discursos, mas sempre as mesmas ideias.
E se a gente mudasse? Não, não. E se a gente se mudasse, pro Sri Lanka talvez? E se fugíssemos, todos, pro Sri Lanka? E deixássemos pr’atrás essas coisas de anotações, bibliotecas e livros? Tentássemos quitar esse compromisso impagável; se parássemos de escrever e nos tornássemos aquilo que ninguém imagina que pudéssemos ser? Quem sabe professor de matemática? Um professor no Sri Lanka; mal remunerado como aqui, só que longe disso tudo, dessa sina. Quem sabe a gente fosse feliz? Metodicamente feliz, dentro de um ônibus lotado. De Londres a Goiás montados num elefante urbano. Só precisamos converter a moeda; andar algumas horas pra frente.
Não é uma equação exata essa nossa tendência a passar as tardes com a bunda fincada no sofá e os olhos na tevê. Precisamos de novas paisagens, mas continuamos barganhando por analgesia. É que não sabemos no que isso vai dar: todos os nossos planos. Mas, pensando bem, calculamos quando tudo começou: naquela dívida de uns anos atrás, que não caduca nunca. Pra nossa sorte?
Ou… ah, azar! Chame como você quiser.

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