Todo dia a turma do escritório se reunia após o almoço para tomar um cafezinho e falar da vida alheia. Uma maneira de integrar o pessoal, dizia o chefe, sempre vermelho de tanto rir das desgraças e insinuações maldosas que faziam sobre a vida das pessoas.
A integração, na verdade, era a obrigatoriedade de chegar pelo menos quinze minutos antes do expediente para fazer fuxico. A turma, consistia em dois ou três funcionários, mais o chefe, e o restante era o resto, como ele gostava de dizer. E o resto do pessoal apenas acompanhava atento aquele falatório diário, torcendo para não ser a bola da vez.
Aquele dia não fora diferente, exceto pelo fato do contador também ter sentado sobre a mesa. Ele, que há tempos andava roxo de raiva daquela situação, interrompeu mais uma das piadas do chefe sobre o office-boy:
-Sabem? Isso me lembra uma história…
E, antes que o chefe tomasse a palavra de volta, o contador agarrou a oportunidade com as duas mãos:
– Todo mundo aqui gosta de fofoca, né? Pois eu tenho uma quentinha: a nossa concorrente fez uma reunião com a operadora do plano de saúde e pediu a cabeça de uma das pediatras. A alegação é de que ela distribuía atestados para que as funcionárias cuidassem dos filhos doentes e que isso atrapalha a lucratividade do negócio. Mas aqui não temos esse problema, né chefe? Nosso quadro é 97% masculino, e, irônica e convenientemente, nenhum de nós tem filhos pequenos.
Nem bem tinha acabado a frase, a telefonista, moça quietinha, motivo de chacota porque corava cada vez que atendia a uma ligação, parte daqueles 3%, emendou:
– E tem aquela do funcionário da fábrica aqui ao lado. Foi demitido porque se machucou numa barra de ferro inútil, cravada entre as máquinas. O encarregado que o demitiu foi o mesmo que rasgou uma solicitação dos funcionários para que retirassem a barra alguns dias antes.
Então foi a vez do rapaz, branco de medo, num repente de ousadia. O boy, a quem o chefe apelidou de “bóia”, porque, dizia, andava meio aéreo, preocupado com os estudos e as brigas dos pais, lembrou:
– E tem o caso da minha ex-professora que, na escola onde trabalhava durante a noite, foi exposta frente aos colegas, e cobrada por atribuições que não eram responsabilidade dela. A humilhação foi tanta que ela mudou de cidade.
Ninguém achou graça.
O contador, finalmente, arrematou, pois estava na hora de pegar no batente:
– O nome disso tudo aí, para quem não sabe, é assédio moral. E, vejam só, às vezes está bem mais perto do que a gente imagina.
Falou isso olhando para o lado, onde o chefe, descendo da mesa, sorria amarelo.

Deixe seu comentário