Gosto é algo extremamente pessoal. Gosto não se discute. Agosto também. Para muitos, é um mês nebuloso, longo e, ainda, frio demais; para mim, porém, é quando começamos a nos despedir da languidez invernal e recepcionar a primavera que se aproxima.
Há quem não aprecie o agosto; quem ache um mês infindável, carregado de maus agouros. Mês do lobisomem, entre outras insanidades. Período em que a constelação de Leão se torna mais visível, o que os romanos na Idade Antiga acreditavam ser um enorme dragão, que atravessava o céu cuspindo fogo e espalhando maldições; daí, acredita-se, tenha surgido a má fama do oitavo mês do calendário gregoriano.
Corroborando com as superstições, as duas Guerras Mundiais tiveram início em agosto; o Muro de Berlim começou a ser construído no mês de agosto; Hiroshima e Nagasaki foram destruídas em agosto; Getúlio Vargas, Juscelino, Elvis Presley e Drummond morreram em agosto. Também é quando comemoramos o dia da sogra. Então tá certo que um monte de tragédia aconteceu nesse período, assim como acontece todo o dia. Mas muita gente legal nasceu em agosto, como eu, o Ney Matogrosso, a Madonna e o Jorge Amado.
Coisas boas também aconteceram nesse mês, como a aprovação da Declaração dos Direitos Humanos e a fundação da Cruz Vermelha. Apesar disso, taí um mês injuriado, repleto do pior do imaginário popular e tradicionalmente associado aos maus agouros, por isso a maioria das pessoas tende a lembrar apenas dos fatos negativos. Caio Fernando dizia que “Para atravessar agosto é preciso antes de mais nada paciência e fé… e também certa não-fé, para não ligar a mínima às negras lendas deste mês de cachorro louco.” Eu não ligo. É do meu feitio não ligar. Há quem acredite que gato preto e sexta-feira 13 dão azar. Espelho quebrado, sal derramado e chinelo virado. Se é verdade que o pensamento atrai, deveríamos ser mais otimistas. Que agosto nos traga sorte, porque sorte é tudo o que a gente precisa sempre. Sorte tem quem acredita nela é apenas título de música brega?
Eu, por exemplo, prefiro acreditar em poemas; acredito mais em livros velhos. Eu ainda acredito no amor. Acredito em simpatia, embora tão antipático esse mundo. Acredito em outros mundos também. E, dito isso, e, também que eu uso um galho de pitangueira para benzer, e que não creio em deus, mas gosto demais de alguns santos. E, isso dito, dá para perceber que eu não acredito em quase nada, mas não duvido também. Prova de que o bom senso deve andar lado a lado com a crendice que vive enraizada na alma da gente.
Meu número da sorte sempre foi o oito, apesar de eu nunca ter sido agraciada com prêmios de rifas e loterias; o que seria uma grande decepção se alguma vez eu tivesse jogado. Tem gente que aposta em fazer figa, bater na madeira e pendurar ferradura sobre a porta para se proteger. Gente que se inquieta só de pensar em mau-olhado. Quem acredite em bruxas; yo no creo, pero… Sete vidas, vida após a morte. De certo mesmo, nessa vida, é que ela segue. Apesar dos desgostos.

Inspirado em Sugestões para Atravessar Agosto, de Caio Fernando Abreu.

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