A esperança se suicidou. Pegou um punhado de crenças tranquilizantes e empurrou goela abaixo com longos goles de promessas baratas. Drogas fáceis de encontrar em qualquer bocada. Privada, mística ou estatal.
O resultado foi fatal, entorpeceu-se de morte. Destino de viciada.

Agora, o corpo vaga por aí sem poesia, olhando pro horizonte e vendo só a geografia entendendo árvores e pássaros só por biologia. Ainda vê as cores porque o cérebro insiste em pintá-las. Se comunica pelo vício do vício de falar, mentindo com as mesmas palavras decoradas, de acordo com a cartilha social.

A fé, que já era doente, vive em velório permanente. O perigo agora é que a lógica morra de solidão, deixando para a loucura a gerência do destino. É tudo que ela quer, só precisa desatar alguns nós dos propósitos mal amarrados, que ainda a prendem. Mas estão cedendo.
O ser que resulta disso é um andante sem destino. “Quando não se sabe aonde vai, qualquer caminho serve.” Deve ter um jeito de sair desse labirinto, um atalho entre a apatia e o terrorismo. Mas nesse estágio, mesmo se tropeçar na solução, com a esperança sepultada e a fé abatida, cada vontade, cada ideia, são natimortas.

Às vezes, enquanto anda sem rumo, arrastando o ombro pelas paredes, o corpo lembra como foi entrando nessa semivida. Angustiado pelas incertezas, que brotam como espinhas na saída da infância, comprou um pré conceitozinho inocente. Foi bom, acalmou. Mas só serviu para amenizar uma das interrogações. E um pede outro, e mais outro. Quando viu, estava consumindo todo tipo de crença, boato e pós-verdades. Era comum uma droga anular o efeito de outra. Então o fizeram crer que as interrogações se fortaleciam na sua fraqueza e que precisava algo mais intenso: as certezas estimulantes. Consumiu, mergulhou, se tornou elas. Então passou a vendê-las. A quem não as queria, empurrava pelas goelas. Se tornou violento, insensível, intolerante. Em surto, acabou experimentando promessas calmantes e misturando tudo em um coquetel diário de insanidade. E as interrogações não morriam, só foram ficando cada vez mais confusas, até a overdose.

Fica, portanto, este depoimento, para os que ainda têm esperança viva. Afastem-na dos mercadores do vício, eles estão na mídia, no Congresso e à nossa volta. Importante: deem a ela todo dia um pouco de conversa, pesquisa, criatividade e revolta.

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