Não lembro a data e, objetivamente, isso não tem a menor importância. A situação, porém, volta-me à memória com certa frequência, como uma espécie de trauma mal resolvido. Os psiquiatras talvez tenham melhor explicação, mas acho que é simples: episódios assim realmente mudam a gente. Refiro-me a um acidente de trânsito que registrei em meados dos anos 90, na RSC-287, altura de Muda Boi. Infelizmente, em 30 anos de carreira, fotografei muitas colisões com mortes nas rodovias da região, mas aquela, especialmente, eu nunca esqueci porque uma das vítimas fatais era uma criança.

Estávamos no verão, fevereiro eu acho. Na redação, em procedimento de rotina, diariamente eu ligava para as várias unidades da Polícia para verificar se havia algo a ser noticiado. Fazia isso logo cedo, por volta das 8h. No Posto da Polícia Rodoviária Estadual, um soldado informou que as viaturas haviam se deslocado para atender a uma ocorrência de trânsito e que havia mortos. Peguei uma câmera no armário e pedi a um colega que me levasse rapidamente. Com sorte, ainda chegaríamos antes de “desmancharem a cena”.

De fato, ao nos aproximarmos do local, na saída de uma curva, um carro batido anunciava a tragédia. O condutor perdeu a direção e colidiu numa árvore. Pelo estrago no automóvel, um Escort modelo antigo, estava em alta velocidade. A poucos metros do veículo, havia três lonas cobrindo “algo”. Quando me aproximei, vi que eram corpos e o menor deles, de um bebê com menos de um ano. Uma família inteira foi dizimada. Descobri depois que estavam indo para a praia, onde iam passar alguns dias de férias.

A perda de uma vida, independente da idade, sempre causa enorme sofrimento, mas é especialmente dolorida quando se trata de uma criança. Os adultos são responsáveis pelos seus atos, podem agir de forma preventiva e até se salvar, dependendo das circunstâncias. Mas e o bebê, o que ele podia fazer? Fiquei dias com aquela imagem na cabeça, pensando no que poderia ter se tornado, nas experiências que teria vivenciado, na família que não teve, nos afetos que não distribuiu.

Sei que muita gente sentiu o mesmo no último fim de semana, quando outra criança, uma menina de oito meses, morreu num acidente de carro junto com seu dindo, pouco depois de ser batizada. Foi na mesma estrada, também numa saída de pista. Contudo, diferente dos anos 90, hoje a informação logo ganhou as redes sociais e, enquanto muitos lamentavam a tragédia, alguns pareciam interessados em buscar culpados.

Não sei exatamente no que estamos nos transformando, mas a falta de empatia sinaliza um futuro sombrio para a humanidade. Obviamente, as autoridades vão investigar as causas do acidente e, se for o caso, encaminhar punição aos eventuais culpados. De qualquer forma, acho difícil que exista penalidade maior do que a dor de perder um filho e mais um familiar nestas circunstâncias. E quem, em sã consciência, colocaria em risco as pessoas que mais ama?

As redes sociais, sem dúvida, possuem valor, mas um dia vamos constatar que o sofrimento produzido através delas não compensa suas vantagens. Aos promotores e juízes do Facebook, não custa lembrar que todos fazemos parte de um mesmo organismo vivo. Que o julgamento precipitado e o mal praticado contra os outros, um dia, voltará para nos assombrar. Pessoas incapazes de se colocar no lugar das vítimas de uma tragédia, que acusam quando deveriam chorar, podem até ter uma vida longa, mas já estão mortas há muito tempo.

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